____ junho 18, 2021 ____

Programa “Mais Você” presta desserviço à culinária africana

No final de abril deste ano, dentre algumas polêmicas sobre racismo que envolveram a apresentadora Ana Maria Braga e o programa Mais Você, uma delas dizia respeito a um prato chamado ugali. O ugali é um prato típico do continente africano, feito à base de farinha e água e acompanhado de um molho. Após o chef Sam, do restaurante Mama África, ter ensinado a receita em uma reportagem exibida no programa, a apresentadora e o jornalista Thiago Oliveira – que participava à distância, através de um telão -, experimentaram o prato.

A página Notícias da TV destaca os comentários de Ana Maria Braga e Thiago Oliveira a respeito da comida. Os dois descreveram o prato como “feio” e “difícil de engolir“. Além disso, fizeram piadas sobre passar mal após comer o ugali e disseram que o prato não tinha gosto. O comportamento preconceituoso – racista e xenofóbico – fez o chef Sam se pronunciar e caracterizar a atitude como “mal educada“. O chef Sam é nascido em Yaounde, no Camarões, e em seu restaurante Mama Africa, localizado em Tatuapé (São Paulo), ele gosta de conversar com os clientes sobre a origem do prato e sua cultura.

Outro a se pronunciar em relação ao ocorrido foi o chef congolês Pitchou Luhata Luambo, do restaurante Congolinaria. Em um vídeo publicado no Instagram, ele explica que o ugali é um prato comum em quase toda a África e que muda de nome dependendo do local. O chef aponta que, se fosse um prato europeu, provavelmente eles não agiriam assim e explica que não gostar de uma comida não torna uma pessoa racista, mas a atitude em relação ao não gostar e o que faz você não gostar, sim. Pitchou Luhata Luambo ressalta que esta abordagem da tv aberta em relação ao ugali joga por água abaixo o trabalho de disseminação da cultura da África que tem sido feito há anos.

Fontes:

____ julho 07, 2018 ____

Refettorio Gastromotiva

Instagram @comunicacaoegastronomia

A experiência de servir o jantar no Refettorio Gastromotiva me fez pensar na comida enquanto teatro. Roy Strong em seu livro “Banquete” se dispõe a estudar o ritual da alimentação nas classes mais abastadas da sociedade. É neste contexto que ele define o ato de comer como um ritual teatral, envolvido em sequências de pratos e regras de etiquetas.

No filme nacional “Estômago” , quando o personagem Raimundo Nonato se dispõe a servir um banquete na cadeia utilizando elementos e ingredientes associados às refeições de quem possui maior poder aquisitivo, Nonato o faz com a clara intenção de estabelecer relações de poder através da comida. O impasse que surge é até que ponto esses elementos e códigos são capazes de gerar naquele grupo em questão uma identificação. A identificação é essencial pra estabelecer uma relação, seja ela de poder ou não.

A Gastromotiva tem como ponto de partida a intenção de promover transformação social a partir da comida. A iniciativa, trazida para o Brasil pelos chefs Massimo Bottura, David Hertz e pela jornalista Ale Forbes, inclui projetos como cursos de capacitação em cozinha, curso de empreendedores e o Refettorio Gastromotiva. Foi deste último que eu participei no dia 21 de junho, uma quinta-feira. A minha experiência no Refettorio consistiu em servir o jantar gratuito para pessoas em condição de vulnerabilidade social.

A comida é pensada por um(a) chef, feita na cozinha do local e servida para pouco mais de 70 pessoas acomodadas no salão principal. Somos instruídos sobre a limpeza necessária para servimos a comida e sobre como devemos nos movimentar pelo salão (“No salão nunca andamos para trás”). Com o pensamento entre o teatro de Roy Strong e o filme Estômago, entre o ritual e a identificação, observei que a comida pensada por uma chef somada à apresentação dos pratos e ao serviço dividido em entrada, prato principal e sobremesa tem significado simbólico e psicológico. Essa estruturação em etapas diz respeito à camadas, uma seguida pela outra e então mais outra, indo da abertura ao desfecho, performando um teatro, movimentado pela desajeitada coreografia dos voluntários no salão, reflexo da nossa inexperiência em servir.

____ outubro 02, 2017 ____

Cozinheiros demais

Aqui pelo centro do Rio tem umas barracas montadas nas calçadas que vendem livros a preços muito baratos. São livros velhos, geralmente espalhados de forma bagunçada e expostos a um sol escaldante. Há certo tempo, quando eu estagiava e estudava pelo Centro, queimar a cabeça enquanto revirava esses livros era parte do que eu considerava distração. Numa dessas, comprei “Cozinheiros demais”, livro de Rex Stout, por três reais (se não me engano). Um investimento com meu pouco dinheiro de estágio.

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O livro despertou a minha curiosidade por diversos motivos. Primeiramente, a capa com o cozinheiro morto com uma facada nas costas me pareceu um pouco hilária, um deboche. Depois, o título: Cozinheiros demais. Títulos relacionados à alimentação sempre fazem eu pegar um livro para ler sobre o que se trata e eu adoro quando o assunto comida aparece em histórias de ficção. A história, no caso, não era qualquer história de ficção, era um suspense e envolvia assassinato. Era certo que eu precisava ler este livro.

A estrela do livro é Nero Wolfe, um detetive descrito como obeso e grande apreciador de comida. Enquanto ele é a parte pensante, seu amigo e empregado (eu diria uma espécie de secretário e guarda-costas) Archie Goodwin é a parte ativa, quem coloca a mão na massa, fazendo o que Wolfe ordena. O detetive é convidado de honra para palestrar sobre as contribuições americanas para a haute cuisine em um evento que reúne os quinze maiores chefs do mundo. Chefs europeus, um tanto quanto desdenhosos sobre essas contribuições, uma plateia cheia de egos e excentricidades.

Um dos chefs convidados, chamado Phillip Laszio, é simplesmente odiado pelos demais. Ele roubou os créditos da receita de um chef, a esposa de outro, o posto de trabalho de mais um. Aparentemente, o cara chegou aonde chegou através de trapaças e artimanhas. Quando Laszio aparece morto com uma facada nas costas no evento, qualquer um poderia ser o responsável, visto que todos tinham motivos para matá-lo. Inclusive, o pouco caso dos demais com a morte dele é parte do humor do livro. Um dos personagens chega a dizer que, ainda que não o tenha matado, se pudesse fazer algo para trazê-lo de volta, não o faria. Com todos sendo suspeitos e investigadores que não sabem lidar com os empregados negros do hotel onde ocorre o evento, Wolfe se vê envolvido no caso.

O racismo não me pareceu a questão central do livro, mas o autor certamente esbarra nela quando opta por fazer sua história se passar em West Virginia e faz do abismo entre brancos (os convidados para o evento e hóspedes do hotel) e negros (os empregados do lugar) parte importante para o desenrolar do mistério. Já a descrição das mulheres, sempre fatais, cínicas e/ou manipuladoras não me pareceu uma crítica, mas parte da narrativa, como pude ler em “as mulheres são histéricas. Seus momentos de calmaria não passam de uma pausa para recuperação entre os ataques” (fala de Nero Wolfe) ou “os sujeitos comiam como se fossem uma mulher enchendo uma mala” (narração). É sensato localizar o livro dentro de sua época: de nome original “Too many cooks”, a história foi escrita em 1938.

Nero Wolfe, personagem que até então eu desconhecia, é parte de outras publicações do autor. A forma como a história flui, as ironias e a curiosidade que desperta fazem a leitura valer a pena. Fiquei satisfeita por ter comprado este livro com a foto debochada. Além de ter visto capas mais desinteressantes para o mesmo título, não fui enganada pela imagem. Um ótimo exemplo de quando se acerta ao julgar um livro pela capa.