____ junho 20, 2017 ____

3 ANOS DE SABOR DIÁRIO! YAY!

Have fun on

Quando eu comentei aqui em casa que o Sabor Diário estava fazendo 3 anos, a reação da minha irmã foi: “Já?”. Engraçado que a sensação dentro de mim era outra: ainda. Parece que o Sabor Diário existe há mais tempo pra mim, porque ele existiu durante muito tempo na minha cabeça (e em anotações em caderninhos e bloquinhos, que eu adoro uma papelaria, né?). Demorei um tantinho pra tirar o projeto do papel e transformar em algo mais concreto, o blog, no caso. Um blog despretensioso para falar sobre alimentação já que eu pareço escolher livros, filmes, séries, lugares e até cursos, só porque eles tocam de alguma forma no fator comida. Agora, cursando a pós em jornalismo gastronômico, eu me questiono aonde eu quero chegar com esse espaço e que outros espaços o Sabor Diário pode ocupar.

Acho que as coisas começaram a se delinear quando eu passei para o curso técnico em alimentos integrado ao ensino médio na Federal de Química. Confesso que o que eu queria mesmo era o ensino médio gratuito, mas acabei me envolvendo com a área de alimentos, o que me fez querer estudar História da Alimentação. A graduação em história eu já queria fazer há muito tempo, mas o técnico em influenciou a relacionar as áreas. Foi difícil encontrar orientador para a minha monografia e encontrar a alimentação contemplada em alguma disciplina do curso, mas eu fui seguindo o meu caminho. Foi no início desse caminho, que começou em 2011, que eu comecei a esboçar um espaço pra falar sobre comida.

Quando uma amiga me falou do curso de extensão em jornalismo gastronômico eu já fui fazer pensando no Sabor Diário (e a experiência foi bem maior do que isso, como já escrevi aqui). Vejo a programação do cinema catando filmes que falem de alguma forma sobre comida e foi assim que eu acabei vendo Bistrô Romantique e descobri que eu adoro ir ao cinema sozinha. Fui a Bienal e pesquisei livros que falassem cobre comida. Fui chamada para o Circuito do Vinho e tive um acesso de ansiedade que dividi na terapia: o Sabor Diário sou só eu, como ir ao evento sozinha sendo tão antissocial? Cogitei não ir, mas fui e interagi (o vinho ajudou). Me juntei a uma engenheira (a Lourdes) e a uma nutricionista (a Denise) e apresentamos três vezes a oficina sobre História da Alimentação. Atualmente fazendo a pós em jornalismo gastronômico, percebo que parte das minhas anotações durante as aulas são pensando nesse espaço, porque eu escuto uma coisa e fico louca de vontade de dividir. Não sei o quanto disso eu de fato registrei aqui e, sinceramente, não acho que tenha sido muito. Volta e meia eu me pergunto o que eu quero com o Sabor Diário e, após muito tempo sem saber responder, hoje eu diria que o eu quero é – como naquela citação famosa sobre a utopia – caminhar. E até que eu tenho caminhado, né?

____ abril 29, 2017 ____

Lenha no fogão

Conheci o Roteiro Lenha no Fogão através do texto da Constance Escobar em seu blog Pra quem quiser me visitar. Como alguém que cursou a graduação em História sempre buscando sua conexão com a alimentação, o roteiro pareceu uma oportunidade única de estar em contato com aquilo que tanto me instiga. A alimentação nos coloca em contato com os saberes daqueles que fazem, das mãos que mexem as colheres, das vozes que contam as histórias. História oral, tradição, memória.

O roteiro é resultado da pesquisa do mestrado em Memória Social (UNIRIO) da Juliana Venturelli, que se propôs a analisar as receitas culinárias do sul de Minas a partir dos cadernos e das narrativas orais das famílias da região. Assim, em três dias de roteiros, durante o feriado de Páscoa, experimentamos os mais diversos sabores de São Lourenço, Maria da Fé, Cruzília, São Vicente de Minas, Serranos e Baependi, sendo recebidos por aqueles que cozinham e contam histórias.

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Quando estivemos no ateliê Gente de fibra, o cheiro do local aonde são feitas as artes a partir de papel kraft e fibra de bananeira me levou de volta aos laboratórios de química e microbiologia da escola técnica, nos meus tempos de ensino médio, coisa de uma década atrás. No dia seguinte, na oficina de bala de coco, vendo a Hilma puxar a massa e depois experimentando a bala com a textura elástica, voltei ainda mais no tempo, lembrando da minha infância, quando eu tinha o privilégio de comer as balas de coco nesse ponto.

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Enquanto algumas experiências me levavam de volta ao passado, outras pareceram absolutamente novas: o doce de laranja da doceira e bordadeira Dona Estela tinha uma consistência maravilhosa e um sabor que mantinha o suave amargor da fruta. Este doce de laranja em Maria da Fé e a manteiga que comemos no Casarão da Neusa, em Serranos, me deixaram com a sensação de que certos sabores só se experimenta em Minas.

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O que também se mostra característico do local de nosso roteiro é o acolhimento das cozinheiras e cozinheiros que nos recebem cheios de histórias para contar, algumas bastante engraçadas, como as contadas por Dito, no seu restaurante Forno Quente, em São Vicente de Minas. Dito nos recebeu com um almoço cheio de opções, dentre as quais eu guardei especialmente o sabor do antepasto de jiló, do frango ora-pro-nobis, da abóbora e dos doces da sobremesa (eram oito!).

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Outras boas histórias e mesa farta nos reservavam as irmãs Marita e Miloca, na Fazenda São José da Vargem. Após passeio pelo casarão histórico, um almoço feito por Miloca foi a refeição que fechou nosso roteiro. Abóbora, costela, tutu, linguiça e torresmo, além de uma cachacinha com limão coroaram o fim de uma viagem entre sabores que são únicos e familiares ao mesmo tempo. O acolhimento dos mineiros tem dessas: a gente mal chegou e já é de casa, a gente vai embora já pensando em voltar.

____ março 10, 2017 ____

A fome é logo ali

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Comer ontem no bandejão do IFCS fez com que eu lembrasse de uma coisa que aconteceu há doze anos.

Quando eu estudava no Instituto de Educação, eu ficava na escola praticamente o dia todo. O refeitório servia café da manhã, almoço e lanche enquanto eu estava lá. O café da manhã era por volta das dez da manhã. Lembro de um dia em que avisaram que o café passaria a ser mais cedo. Não lembro o horário, só lembro que era mais cedo. Eu, do alto do meu privilégio, achei ruim. Nesse horário eu ainda não estava com fome! Realmente não passou pela minha cabeça que nem todo mundo que estudava lá tinha o privilégio de sair de casa já tendo tomado café da manhã. Hoje isso me parece óbvio, mas há doze anos não era. Alguém precisou me explicar que a refeição tinha sido adiantada porque o café da manhã oferecido pela escola era a primeira refeição de muitos alunos e eles precisavam estar alimentados para tirar proveito da aula. Alguém precisou me explicar que alguns desmaiavam de fome. Eu senti vergonha por não ter pensado isso sozinha e principalmente por ter reclamado. Desmaiar de fome nunca foi parte da minha realidade e até então eu achava que só era a realidade de pessoas muito distantes de mim ou de gerações anteriores a mim na minha família, mas não de alguém que estudasse no mesmo lugar que eu. Antes dali, eu estudava em escola particular e pagava todo dia pela comida da cantina. Acho que eu nunca tinha pensado em alunos que dependiam exclusivamente da comida da escola. Aquele dia eu aprendi que a fome não existia num lugar distante ou em outro tempo. A fome era logo ali.

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Em relação ao bandejão na universidade, o acesso à comida é importante para que pessoas capazes de trazer um olhar diferente para o estudo da sociedade estejam presentes nos espaços acadêmicos dos quais elas vem historicamente sendo excluídas. O almoço e o jantar oferecidos pela universidade democratizam os espaços tradicionais de construção de saber e diversificam esses saberes. Quando o dinheiro necessário para comida impossibilita a permanência de alunos nesses espaços, a gente perde. Mas ontem, não. Ontem tinha arroz e feijão. Ontem a gente ganhou.