novembro 2014

____ novembro 29, 2014 ____

A Feira Planetária

Recentemente fui a um evento de food truck na Gávea, chamado de Feira Planetária. Esse termo food truck se refere à venda de alimentos sobre quatro rodas, com as cozinhas adaptadas para o espaço dos automóveis, como kombis e trailers. É mais comum nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil esse tipo de comércio tem ganhado a atenção da grande mídia. Não que seja novidade, a gente tá acostumado a ver esse tipo de venda. Aqui pela Zona Norte e Centro do Rio de Janeiro eu vejo hambúrguer, cachorro quente, pipoca e tapioca sendo vendidos dessa forma.

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Havia um diferencial. O estilo dos “estabelecimentos”. Para cada veículo você tinha todo um conceito pensado para representar o estilo da comida que ali era vendida e dos próprios vendedores. Por exemplo, o de comida japonesa vinha todo enfeitado com desenhos japoneses (animes). Ali estavam as pessoas que vendiam, mas também criavam os sabores das suas comidas, trazendo bastante diversidade.

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Eu li sobre o casal na Revista O Globo (09/11/2014) e pude encontrar por lá os namorados Marianna e Diogo que criaram a sua barraquinha de tapioca e, com a ajuda da cozinheira baiana Maura Trindade e da chef pernambucana Cláudia Vieira, elaboraram cerca de 30 sabores. A matéria publicada na revista comenta a variedade de lugares onde eles compram seus ingredientes e nos revela que, por exemplo, a manteiga utilizada é feita pelo pai de Marianna.

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Eu fui lá buscando por opções vegetarianas e notei o que não é novidade pra ninguém: mesmo hoje em dia com o vegetarianismo tendo um maior espaço e ganhando cada vez mais adeptos, ainda é muito complicado sair com os amigos para comer e encontrar opções. Fiquei pensando – porque realmente não sei – se temos aqui pelo Brasil food truck vegetariano. Será?

Bom, fui em busca das opções. Bebida não é problema pra mim, eu adoro cerveja e caipirinha e pude apreciar das duas coisas. A caipifruta de morango estava maravilhosa e foi bacana ver o cuidado no preparo e o amor pelo trabalho. Sobre a comida, encontrei um risoto de palmito ao pesto realmente gostoso. E ainda comi umas trufas com ganache pra me despedir do evento.

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O evento tinha espaço gramado para galera sentar, umas mesas e banquinhos em estilo rústico. Achei bacana, mas também tenho minha reclamação: as coisas eram caras. A chamada pro evento me pareceu mais popular, mas chegando lá, shame on me, o público alvo estava definido.

Essas fotos ilustrando essa publicação foram tirados pelo meu amigo Murilo Jesus e vocês podem ver mais um monte de fotos lindas que ele tira no instagram dele.

____ novembro 28, 2014 ____

Food Matters

Trabalho em um museu-casa, onde manipulo cartas trocadas pela família que ali morou no final do século XIX e início do século XX, ou seja, final do Império e início da República aqui no Brasil. Como eu pesquiso História da Alimentação, minha proposta inicialmente é transcrever todas as menções que eu encontrar à alimentação, para ver que tipo de estudo eu posso produzir em cima do material. O que eu venho notando é que a alimentação é bastante citada e, na maioria das vezes, vem relacionada ao fato de estar sendo utilizada para curar alguma doença de um membro da família, como gripe, dores no corpo, cólicas e até assaduras em bumbum de bebê.

Antigamente a alimentação estava bastante associada à cura. É no século XIX que surge o termo “alopatia” para definir a medicina tradicional, termo criado por um homeopata, defensor de uma medicina alternativa. A indústria farmacêutica surgiu no final do século XIX e seu avanço se deu ao longo do século XX. O que se observa na História, é uma separação da medicina da nutrição e cada vez um maior afastamento entre elas. Nas cartas que eu leio, ainda no início do século XX, é possível notar a nutrição sendo utilizada no lugar do medicamento farmacêutico muito devido à tradição familiar e aos conhecimentos passados de mãe para filha. Não podemos esquecer do papel dos indígenas e africanos. Muitas das chamadas “criadas” eram ex-escravas e traziam seus conhecimentos de cura para os filhos das então “patroas”.

Hoje em dia, vamos ao médico e ele nos receita um medicamento para acabar com a dor de cabeça, por exemplo. Não se fala sobre a prevenção dela através da alimentação e nunca o médico pergunta ao paciente sobre o que ele come. É disso que fala o documentário Food Matters. O lucro, as instituições e corporações que existem por trás desse sistema medicinal e farmacêutico controlam (por financiarem) as próprias pesquisas de faculdade. Os meios de comunicação direcionados à massa também indicarão medicamentos para você comprar, mas jamais dirão que você não precisa comprá-los uma vez que se alimente bem. Como bem ressalta o documentário, para que a indústria farmacêutica lucre é preciso que as pessoas estejam doentes. Não há um interesse na cura que as livre de tomar remédios, pois isso não seria lucrativo.

O tipo de informação contida em Food Matters é aquela que você precisa buscar, ela não chega naturalmente até você. Argumento já muito utilizado é o fato de assistirmos a jornais que retratam a todo tempo desgraça e violência e, então nos comerciais, nos perguntam se estamos cansados e infelizes e nos oferecem as pílulas que nos curarão disso. Da mesma forma que assistimos às novelas e seriados e vemos corpos padronizados e vidas com finais felizes e logo partimos aos comerciais sobre o novo aparelho que vai modelar o seu corpo ou o hotel onde você precisa descansar nas férias. Recomendo Food Matters por esse conteúdo questionador. Não é necessário concordar com tudo (eu não concordei) o que é dito no documentário, mas faz-se importante instigar o senso crítico.