janeiro 2016

____ janeiro 25, 2016 ____

Garotas de Vidro

downloadLaurie Halse Anderson conta ter escrito a história de Lia, sua personagem principal em Garotas de Vidro, após receber muitos relatos de leitoras suas sobre os transtornos alimentares que enfrentavam, além dos cortes que faziam no próprio corpo. Em seus agradecimentos, ela cita a psicoterapeuta Gail Simon. Especializada há mais de 20 anos em tratar pacientes com transtornos alimentares, Gail leu os manuscritos de Laurie analisando as descrições físicas e psicológicas da personagem a fim de garantir maior veracidade.

Lia é uma adolescente do ensino médio que, assim como todas as meninas de sua idade, vive uma insatisfação com seu próprio corpo. Ela acaba por seguir um caminho tortuoso, o da anorexia, ao buscar na magreza doentia um sentimento de perfeição e autocontrole. Seu transtorno se agrava quando Lia recebe a notícia da morte daquela que costumava ser sua melhor amiga desde os tempos de infância, Cassie. O corpo de Cassie foi encontrado sozinho num quarto de motel e o que mais atormenta Lia é o fato de que Cassie ligou para ela trinta e três vezes nos seus últimos momentos de vida. Lia não atendeu as ligações. As duas estavam afastadas já há algum tempo.

A culpa toma conta da adolescente enquanto ela esconde da família a persistência de sua anorexia. Tendo passado já por dois tratamentos, Lia não quer que seus familiares descubram o que ainda sofre, para evitar que a mandem de volta para a clínica. Assim, ela dá a sua comida aos cachorros quando ninguém está olhando, descalibra a balança para não perceberem seu emagrecimento nas pesagens que sua madrasta faz em casa e adota uma série de medidas para que nada atrapalhe sua busca pela magreza.

A história é contada pela própria Lia e a forma como a autora escreveu os pensamentos de Lia é densa e original, mostrando muitas vezes o conflito em sua própria cabeça através de frases pensadas e riscadas (dessa forma), o que faz a gente entrar em contato com o policiamento da personagem principal a respeito de sua alimentação, corpo e sentimentos. O livro é realmente muito bom e nos deixa refletindo sobre a realidade de muitas mulheres e jovens que não conseguem lidar com a insatisfação com o próprio corpo, a dificuldade em enfrentar problemas pessoais e a consequente deturpação de suas imagens corporais. Lia é a personagem criada pela autora, mas sabemos a cada página que Lia é real.

____ janeiro 18, 2016 ____

Como foi a Oficina

Em outubro do ano passado eu pude participar como ministrante de uma oficina na Semana da Química do IFRJ (Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Rio de Janeiro), lugar onde eu fiz meu ensino médio e me formei técnica em alimentos. Quando eu terminei o técnico, optei por fazer o vestibular pra História e seguir com a minha vontade de ser professora. Acontece que chega um momento da faculdade onde a gente precisa estagiar em uma escola. Dentre as que eu podia escolher, optei pelo IFRJ e foi muito bom voltar lá com outro olhar. Estagiei por cerca de um ano e pude reencontrar a professora que me deu aulas de história quando eu fui aluna de lá e alguém que provavelmente mesmo sem saber me deu forças para seguir adiante com a minha ideia de cursar história. Foi ela, a professora Pâmella, a primeira pessoa que falou comigo sobre a possibilidade de eu dar uma oficina sobre História da Alimentação na Semana da Química. Mais pra frente, eu me juntaria a duas professoras, a Lourdes e a Denise, também muito interessadas em destacar esse olhar múltiplo pra alimentação. Por coincidência, a Lourdes vinha justamente lendo sobre o tema e buscando desenvolver um projeto.

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A gente começou se reunindo quase toda quinta-feira. Trocamos muitas ideias, pontos de vista e materiais (textos, livros, vídeos), o que foi muito enriquecedor pra mim. Organizamos nossa apresentação pautadas em três eixos principais: história, cultura e nutrição. Eu começava com um panorama sobre História, mostrando como a alimentação pode ser objeto de estudo da história. Por exemplo, eu falei sobre as civilizações da antiguidade que se localizavam próximas aos rios por causa de suas cheias, que deixavam o solo fértil permitindo a realização da agricultura e a criação de animais. Também comentei sobre as modificações trazidas com o imperialismo e com a chamada Segunda Revolução Industrial, como a intensificação da produção em larga escala e dessa cultura do fast. Refleti como hoje temos os movimentos que reivindicam o slow food (e o slow não está só na comida, tem muitas áreas pedindo para irmos mais devagar, como o slow fashion). Analisar esses movimento ao longo do tempo é muito interessante pra gente se localizar.

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A professora Lourdes trouxe vídeos e reflexões sobre a cultura envolvida no acarajé das baianas, no churrasco de chão gaúcho e no ofício das paneleiras de Goiabeiras, fazendo com que todos pensassem sobre suas origens e hábitos. No primeiro dia tinha uma menina gaúcha que dividiu com a gente os costumes da sua família ao consumir carne e o fato dela mesma ser vegetariana. No segundo e último dia, uma amiga que foi assistir também dividiu o hábito de sua família de João Pessoa de comer cuscuz salgado no café da manhã. Ainda teve uma discussão bem legal sobre a troca da massa do acarajé, substituindo o feijão fradinho por algum ingrediente considerado mais saudável do ponto de vista nutricional. No que isso interfere culturalmente falando?

A professora Denise fez todo mundo levantar e interagir com alguns itens comprados no mercado, montando dois modelos de café da manhã, um considerado saudável e outro com opções que, se consumidas como hábito, não são saudáveis. Assim levou todo mundo a ver que a gente sabe o que escolher pra comer, ainda que alguns produtos possam nos enganar pela embalagem ou pela publicidade. Falou sobre o Guia Alimentar e como ele é revolucionário ao não estimular o consumo de ultraprocessados, indo contra uma indústria fortíssima em nosso país, e incentivando as pessoas a fazerem suas próprias comidas e darem preferência aos alimentos naturais. O Guia não é só ótimo pra gente, mas é um destaque mundial em discussão sobre alimentação. A professora, que é nutricionista, ajudou todo mundo a entender a pirâmide alimentar e nos apresentou uma forma mais simples de aplicabilidade no dia a dia através do prato equilibrado, que é uma ilustração mais didática que a pirâmide.

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Em cada dia tivemos um grupo de cerca de 10 pessoas, entre amigos e alunos. O bate papo rolou de forma tranquila exatamente por isso, mas o assunto é rico demais pra ser discutido em grupos pequenos, dado que era uma oficina gratuita. Eu tenho refletido de verdade sobre formas de despertar o interesse das pessoas para essa discussão. Busquei isso com a oficina e sigo buscando isso com o blog. Precisamos falar sobre comida, de uma forma crítica e também prazerosa, discutindo política e trocando receitas. Tudo junto, porque no fim das contas, a comida carrega essa miscelânea de significados.

As fotos são dos grupos em atividade durante a oficina.

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____ janeiro 11, 2016 ____

Dolci di amor

DOLCI_DI_AMOR__1380918193BLily Turner é vice-presidente de uma empresa importante de Nova York, uma mulher bem sucedida que leva uma vida confortável ao lado de seu marido Daniel, com quem é casada há 16 anos. Lily sempre pensa antes de agir e conseguiu planejar tudo em sua vida: o trabalho, o casamento, a vida de uma alimentação controlada e atividades físicas. Mas um planejamento não estava sob seu controle: os filhos. Apesar das tentativas e investidas em diferentes tratamentos, Lily nunca conseguiu engravidar e nem mesmo sua tentativa de adoção deu certo. Ter filhos sempre foi uma de suas maiores vontades e sua vida ficou duramente marcada por essa impossibilidade. Por isso, Lily viu sua vida desmoronar quando encontrou, na palmilha dos sapatos de golfe de seu marido, uma foto de uma outra família. Ele tinha outra mulher e filhos. Ele tinha com outra pessoa tudo o que ela desejara ter com ele. O cenário da foto não é dos EUA, mas da Itália, na região da Toscana, onde Daniel passa uma semana por mês negociando com produtores de vinho.

Enquanto isso, na Itália, Violetta e Luciana são duas irmãs que possuem uma pasticceria em Montevedova*, onde fazem a tradicional receita de cantucci da família. As duas são membros da Liga Secreta das Cerzideiras Viúvas, um grupo de senhorinhas italianas que se dedica a remendar corações partidos, mas que não tem conseguido bons resultados nos últimos tempos. Os fracassos recentes da Liga se juntam a falta de energia das irmãs para produzirem cantucci como antigamente, o que nos mostra a dificuldade das duas em lidar com a velhice. É indo atrás de Daniel, sem saber exatamente o que fazer quando o encontrar, que Lily acaba chegando à pasticceria de Violetta e Luciana.

Dolci de amor, escrito por Sarah-Kate Lynch é uma leitura bem leve, eu li o livro todo em um único domingo. Não é uma história mirabolante, não foge dos clichês e muitas vezes me peguei imaginando que daria um bom filme, daqueles que a gente assiste pra se distrair. Devorei um capítulo atrás do outro, curiosa pelo desenrolar da história, muitas vezes levada com bom humor.

O livro contrasta a alimentação controlada de Lily e os produtos comprados prontos bastante difundidos nos EUA, com o orgulho dos italianos de Toscana de produzirem sua própria comida e comerem mais preocupados com o prazer do que com a saúde e a estética. Fala também da relação dos italianos da cidadezinha de Montevedova* com a tradição (a valorização da receita de família, morar na casa onde seu tatataravô morou), o que vai tanto para o bem quanto para o mal, no caso de se sustentar antigos desafetos e rancores. E é a relação com o passado o ponto central de tudo. A história embalada pela gastronomia italiana fala sobre como lidar com seu passado de forma a permitir a si mesmo um futuro melhor. Gostosinho de ler.

*Montevedova é uma cidadezinha medieval criada pela autora, baseada na cidadezinha medieval de Montepulciano.