____ outubro 22, 2015 ____

Alimento vs. Produto Comestível

Vamos falar de linguagem. A gente sabe que através da linguagem também se estabelecem relações de poder. Adotar uma palavra pode te localizar politicamente e dizer de qual lado da luta você está. Eu sou do tipo que acha que ficar em cima do muro é o famoso “quem cala, consente”, ou seja, é aceitar o que já está posto, o hegemônico. Você pode até concordar com o hegemônico, mas sem refletir?

Um suco ou achocolatado destinado ao público infantil, cuja propaganda se utiliza das palavras “energia” e “radical” é claramente um produto comestível, com bastante marketing em cima, mas está muito longe de ser um alimento. Eu bato bastante nessa tecla aqui. E um tempero cheio de sódio, cujo comercial apela para o lado sentimental, do amor, do estar em família? E um embutido de carne onde se macera os ossos dos animais pra aumentar massa de produto e baratear a produção? E um cereal cheio de corantes?

Michael Pollan (assista ao vídeo acima) costuma dizer que se você olha os ingredientes no rótulo e não consegue imaginá-los existindo na natureza (ou a palavra é difícil demais de pronunciar), é um bom sinal de que uma junção desses ingredientes não seja exatamente alimento. Escolher chamar de “produto comestível” é colocar as coisas em seus devidos lugares e mostrar ter olhar crítico em relação às empresas que ditam nossos hábitos alimentares. Quando andamos por um supermercado temos tanta variedade de produtos pra escolher que ficamos até confusos. Mas até onde temos mesmo escolha? A imagem abaixo, já bastante difundida na internet, nos leva à frase do presidente do Conselho Federal de Nutricionistas, Élido Bonomo: “Poucas redes ditam o que vamos comer.” E também à reflexão da equipe do Malagueta: “Hoje, os hábitos são construídos nas agências de publicidade e marketing das indústrias alimentícias.”

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Alimento é aquilo que nutre, que faz bem, cuja procedência é conhecida. A venda de um produto deveria informar e não ludibriar o consumidor. O processo de produção deveria ser de interesse de todos nós e não uma coisa da qual pouco sabemos, porque tem disputas envolvidas nesse processo, desde as condições de trabalho de quem está na plantação em contato com venenos até a saúde de quem consome. É um processo de conscientização que não vai ocorrer nos grandes programas de TV que são patrocinados por essas empresas. Uma política por um rótulo que informe (a gente sabe que se viesse no rótulo “19 vezes mais açúcar do que fruta” acarretaria uma queda nas vendas) também vai ser embarreirada por essas empresas, que financiam campanhas eleitorais. E depois, se ficamos doentes não alimentamos a indústria farmacêutica? Compramos produtos comestíveis, compramos remédios. Tudo ok. Tanta informação, mas estamos mesmo informados? Como diz esse vídeo O desejo de não querer saber é muito poderoso.”

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