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____ fevereiro 10, 2017 ____

A tal da ausência

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

 

O vovô e a vovó sempre foram absolutamente presentes na minha vida. Eu sei que pro vovô não estar ao meu lado, o único motivo existente é: ele não pode. E pela primeira vez em quase vinte e sete anos, o vovô não pode.

 

Eu falei em vinte e sete anos, a vovó me falou em sessenta e um. Coisa que eu só posso imaginar e respeitar, já que a vida dela ao lado do meu avô é bem maior que a minha vida todinha.

 

A vovó sempre colocou a comida pro vovô e acho que isso nunca foi um questionamento pra ela como é pra mim – cuidar da casa e do marido, fazer a comida, servir a comida. Eles comem juntos. Mas é junto mesmo. Eu sempre a vi pegar comida do prato dele ou então tirar comida do prato dela e colocar no dele, com o garfo, com a mão. Quando eles comem frutas, ela vai partindo com a faca, uns pedaços pra ele, outros pra ela. A mesma fruta. Eu também já vi isso muitas vezes. Esses (meus) pequenos privilégios do cotidiano.

 

Dia desses a gente comeu manga. Ela comeu a dela, eu comi a minha. Ela disse que precisava cortar a manga de um jeito diferente. Porque a vida toda ela vinha partindo a manga do mesmo jeito e, nos últimos sessenta e um anos, ela comia manga com o meu avô. Com ele no hospital, partir a manga do mesmo jeito de sempre a fazia lembrar do vovô. E lembrar do vovô era lembrar que agora ele não podia estar ali pra comer a manga com ela.

 

Dia desses eu acordei e vi a vovó sorrindo na cozinha, perguntando se eu achei a roupa nova dela bonita. Um conjuntinho todo estampado com desenhos de sorvetes e picolés. Achei bonita sim e tirei uma foto com o celular. Ela estava cozinhando galinha e disse que ia fazer com o caldinho que eu gostava, pra molhar o pão. Desde criança eu gosto de molhar o pão francês no caldo ainda na panela. Aquele pão com o caldo de galinha foi como um abraço.

 

Vovô está melhorando. Depois de quase três semanas na UTI, hoje ele foi pro quarto. O médico disse que ele é muito forte. E é mesmo. Sempre foi. A gente segue sendo forte aqui também, lidando com a ausência como a gente pode, cortando a manga diferente, molhando um pedaço de pão no caldo de galinha.
____ dezembro 31, 2016 ____

Retrospectiva 2016?

Ou: anos pares e alguma coisa que pensei

 

“…Que aconteça alguma coisa bem bonita pra você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo…”
(Os sobreviventes, Caio Fernando Abreu)

 

Nunca achei que veria um motivo bom para 2014 ter acontecido na minha vida. Foi um ano horroroso e até hoje não consigo pensar em aspectos positivos. Na verdade, mal consigo pensar nele. E foi tão intensamente ruim que até minha memória desse ano é meio confusa, como dizem que acontece quando um trauma é grande demais. Por isso eu me peguei rindo sozinha quando pensei que 2016 foi um ano ruim, mas não pior que 2014. Porque foi aí que eu vi a primeira coisa razoável em 2014 ter existido: virou um parâmetro tão intenso de ano ruim, que posso olhar 2016 e pensar: olha, não foi tão ruim. Mas também vi uma diferença escancarada. Em 2014 eu saía muito, bebia, chorava, passava vergonha, dava trabalho, tomava remédio controlado e bebia mais, terminava a noite chorando sentada numa calçada suja. Tantas vezes o mal estar emocional se tornou físico: eu desmaiava, eu tinha cãibras no corpo todo, minhas mãos ficavam duras, a boca entortava. Zumbido no ouvido, vertigem. O corpo louco, a cabeça a mil. Deus que me perdoe, mas às vezes me pego pensando se realmente não endoidei em algum ponto de 2014.

 

Não posso dar o troféu de pior ano ever para 2016, quando eu tive um 2014. Bom, 2016 foi ruim. Um ruim mais duro, mais realista. Realista, talvez por eu ter encarado essa dureza estando sóbria. No lugar de sair e beber, eu deitava olhando pro teto. Não lembro de um único ombro no qual eu tenha chorado, não tomei remédio pra ansiedade e depressão. Foi arrastado e dolorido, sim. Pra mim, foi também solitário. Eu disse muitos “não”. Não fui a muitos lugares, não vi muitas pessoas, não atendi todos os telefonemas. Entendia que ali, naquela hora, o que eu podia fazer por mim era mesmo deitar um pouco. E que isso ninguém podia julgar. Se em 2014 eu posso ter dado vários espetáculos de dor pra quem quisesse ver, em 2016 eu não quis subir ao palco.

 

O estupro coletivo me deixou paralisada diante de uma tela de computador na qual eu lia a notícia. A votação do impeachment televisionada deixou alguma coisa presa na minha garganta, algum grito que nunca saiu. Quando teve o acidente com o avião da Chapecoense eu ouvi a notícia e voltei a dormir. Acordei pensando se aquilo tinha sido só um pesadelo. Não parecia real, mas era. Podia dormir e acordar um milhão de vezes, continuaria sendo real e irreversível. Restava lidar.

 

Eu estava conversando com a minha mãe. Eu lembro de um passado não muito distante onde eu ainda achava que algo extraordinário podia acontecer e tornar tudo maravilhoso de repente. Coisa de quem passou boa parte da vida encantadíssima com histórias de filmes e livros. Acreditar numa cartinha de Hogwarts, num bilhete premiado que ia mudar tudo. Um Harry Potter que vive humilhado no armário embaixo da escada e recebe uma cartinha dizendo que ele é um bruxo ou um Charlie Bucket muito pobre que ganha um dos cinco bilhetes dourados no único chocolate que podia pagar e vai conhecer a Fantástica Fábrica. Acabou sendo simbólico que 2016 levasse Alan Rickman, Gene Wilder. E agora a Carrie Fisher. O Professor Snape, o Willy Wonka, a Princesa Leia. Aos 26 anos, a minha infância era uma Terra do Nunca. 2016 foi todinho uma despedida forçada.
____ novembro 29, 2016 ____

Noo Cachaçaria

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A Noo Cachaçaria se tornou um dos meus lugares favoritos para comer e BEBER! Já começo com esse beber em caixa alta na primeira frase que é pra vocês absorverem o quanto eu gosto das batidas de lá e até arrisco aqui um top 3: cupuaçu com rapadura; melaço com gengibre; maracujá, mel e pimenta.

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Conheci o lugar através de uma amiga que costuma ir lá com a irmã e desde então eu voltei algumas vezes, levando inclusive a minha irmã. Ela é super chata pra comer camarão e mesmo assim achou uma delícia a panelinha de camarão ao molho de requeijão e alho poró. Além de gostoso, é um prato que satisfaz duas pessoas.

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Eu recomendaria também o Bolinho Cucuruqui, que são bolinhos de tapioca com linguiça defumada e queijo, servido com pimenta da casa. É o meu petisco favorito, mas certamente tem outros que valem a pena, como os pateiszinhos de vento que vem com ótimos molhos de acompanhamento e o aipim frito.

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Às quintas-feiras eles tem algo que eu simplesmente amo: ostras! Elas vem fresquinhas de Santa Catarina e por isso mesmo só são servidas às quintas. Você pode pedi-las temperadas com cachaça.

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O ambiente é bastante aconchegante. As fotos que eu tento tirar dos pratos não ficam muito boas porque a iluminação do local é mais escurecida e amarelada e como eu já não sou uma boa fotógrafa (na verdade, eu apenas NÃO SOU fotógrafa) acabo não conseguindo imagens bacanas. Lá tocam musiquinhas gostosas de ouvir, que dialogam com a atmosfera do lugar. Minha irmã diz que parece um ambiente meio de humanas e eu gostei da descrição (talvez porque tenha achado engraçada).

Ah, o atendimento é ótimo.

Noo Cachaçaria: Rua Barão de Iguatemi, 358 – Praça da Bandeira, Rio de Janeiro.