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____ julho 13, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 3: Quando as campanhas de combate à obesidade falham

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As campanhas contra obesidade não estão isentas de críticas por sua boa intenção (é como diz o ditado…). Assim como dentro do consultório médico uma pessoa obesa recebe um atendimento que a afasta justamente da área da saúde, é também nas campanhas contra a obesidade que a pessoa obesa se depara com a sua depreciação. Por exemplo, teve essa campanha publicitária francesa contra obesidade infantil que acabou por colocar a criança obesa num lugar de ridicularização. Veja aqui como pessoas obesas reagem mais favoravelmente a campanhas que se relacionam com o empoderamento do que as já incessantes campanhas que acabam mais chocando do que resolvendo o problema. Aos preocupados com a saúde, parece que o empoderamento é parte do tratamento e é bem recebido por aqueles que normalmente são colocados num lugar de incapacidade e inferioridade.

Saúde não é só saúde física. É mental também. Essa sociedade, esse atendimento médico, essas campanhas contra obesidade, essa cultura que estigmatiza corpos gordos acabam contribuindo para desencadear depressão, ansiedade, insatisfação corporal, tendências suicidas e comportamentos alimentares transtornados.

O se sentir gordo às vezes mascara outros aspectos que merecem atenção e cuidado. “Gordo” e “gorda” não são sentimentos e essa forma de se expressar esconde o estar frustrado, triste, com raiva, sentindo culpa e por aí vai. Distorce o que a pessoa sente e tudo é despejado no seu aspecto físico. Expandir a noção para além do tamanho do corpo ou do número da balança ajuda numa visão menos depreciativa de si mesmo, logo, interfere positivamente no bem estar do paciente e pode fazer com que ele se expresse melhor sobre o que sente e possa tratar disso da forma correta e não através da relação compulsiva com a comida, por exemplo.

Nos EUA, a gente tem exemplo de duas abordagens diferentes em literatura infantil. No livro “Maggie goes on a diet”, é mostrada às crianças a história de uma menina que após emagrecer consegue se tornar a estrela do time de futebol da escola, reforçando a ideia de que a pessoa precisa perder peso para fazer o que quer e ser feliz – ou a ilusão que muitas pessoas gordas sustentam de que, ao emagrecerem, tudo irá se resolver. Um outro livro, chamado “Amanda’s big dream” fala sobre uma patinadora que ouve da técnica que não pode patinar por causa de seu peso e resolve abandonar seu sonho, mas recebe apoio de seus pais e de sua médica e volta a patinar, mostrando que seu corpo não deve ser um impedimento e que o que importa não é o peso e sim um estilo de vida saudável. A autora desse livro, que é especializada em transtornos alimentares, mostra como informar ao outro sobre seu grau de obesidade não tem efeito motivador, pelo contrário, é desmotivante. Neste texto do blog “O Corpo é meu”, a nutricionista Ana Carolina fala sobre as mensagens positivas sobre saúde e felicidade que este tipo de abordagem como a do livro “Amanda’s big dream” pode passar às crianças.

Não é se sentindo mal que o obeso vai buscar mudar sua realidade. Neste outro texto, a nutricionista pergunta “Mudar para se sentir bem ou se sentir bem para mudar?” e diz que a “motivação vem do quanto o indivíduo percebe a mudança como importante para sua vida e do quanto ele se sente confiante em executá-la. Difícil imaginar que uma pessoa se sinta confiante ouvindo todos os dias a mensagem de que é inadequada”. Ela diz ainda em seu blog que “comentários negativos sobre peso vindos de uma pessoa importante e amada tendem a aumentar a ansiedade com o corpo e a comida, contribuindo para uma pior imagem corporal e autoestima, além de incentivar atitudes alimentares inadequadas.”

Busquem “campanha contra obesidade” no google e vejam como elas se utilizam da reprodução de imagens depreciativas de pessoas gordas.

____ julho 12, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 2: O Estigma da obesidade na área de saúde

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O discurso que estigmatiza o gordo não existe apenas no senso comum, mas dentro do próprio discurso médico, e contribui pra que pessoas gordas sejam vistas como preguiçosas, sem força de vontade, nojentas, porcas, incapazes e mais uma série de julgamentos que culpam o indivíduo gordo. Você não os vê assim? Então observe se o seu discurso não contribui para essa visão (e talvez observando o seu discurso você descubra um pouco sobre si mesmo).

O obeso sabe que está obeso. Ele vive numa sociedade que se certifica de lembrá-lo a todo instante de que seu peso está fora do considerado normal, seja ao não encontrar roupas adequadas ao seu tamanho, ao não conseguir emprego, não se reconhecendo na televisão (ou apenas se reconhecendo em personagens ridicularizados em sua condição), o obeso é xingado por desconhecidos (teve essa repórter sendo xingada enquanto trabalhava), crianças gordas sofrem humilhação nas escolas e, claro, o obeso costuma receber atendimento médico ruim. Os profissionais da área de saúde não estão fora dessa sociedade que condena gordos e os médicos reproduzem esses julgamentos ao atender seus pacientes (documentário ao final do post). Quando acontece dessa pessoa querer negar a sua condição é justamente para não lidar com toda a carga negativa que vem junto de sua classificação como obesa.

O que acontece é que as pessoas gordas não recebem o tratamento médico adequado tendo qualquer problema relatado relacionado ao seu peso e, por causa disso, algumas doenças não relacionados com o seu peso podem ser mascaradas. Vale dizer também que mulheres gordas são forçadas a fazer cesáreas desnecessárias porque seriam muito gordas para parir naturalmente, quando elas só precisavam de uma equipe médica que não estigmatizasse, que ouvisse e respeitasse a mulher e a analisasse com ética. Mas empurrar mulheres para violência obstétrica não é novidade. Recomendo o blog Mãe de peso. E aqui também o caso da Bruna que não conseguia operar sua gigantomastia porque os médicos a mandavam emagrecer.

atendimento ruim e preconceituoso que essas pessoas recebem quando procuram os profissionais da área da saúde faz com que elas não queiram voltar ao médico exatamente para não passarem novamente pelas situações de constrangimento e humilhação.

O estigma da obesidade presente na própria área da saúde, a negligência com outras doenças e o descaso com o que o paciente tem a dizer afastam as pessoas obesas do acompanhamento médico que elas possam precisar.

Sempre bom lembrar que existem obesos metabolicamente saudáveis e que, de qualquer forma, saúde e exames médicos com resultados exemplares não são condições para uma pessoa ser tratada com respeito ou para a sociedade aceitá-la.

Veja o documentário:

 

Links:

____ julho 11, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 1: Is this real life?

Uma imagem me chamou atenção ao aparecer compartilhada no meu feed de notícias do facebook. A imagem faz parte de um especial por “30 dias de racionalidade” (foco em: racionalidade), proposto pela página “Pós-Moderno” no Facebook. A imagem diz “Dia 12 – Obesidade não é empoderamento, é doença!” e vem acompanhada de um texto que fala em “gourmetização da obesidade” (wtf?), alega que o obeso não está precisando de “massagem no ego” e sim de ajuda médica e que jamais podemos militar para que essas pessoas obesas se aceitem como são. Eu não sei como exatamente uma pessoa não se aceitar como ela é pode afetar positivamente a saúde dela. Não se aceitar gera um bem estar danado!

A moderação da página diz, agora nos comentários: “Reitero que o posicionamento da página NÃO É de ridicularização, exclusão ou disseminação de visão preconceituosa contra quaisquer indivíduos com alteração de peso por mais que talvez isso não transpareça fortemente nessa imagem”.

Talvez. Não. Transpareça. Fortemente. (Vou adotar essa expressão pra vida!)

Não transparece e a imagem não veio sozinha. Ela veio com um texto. E ambos, texto e imagem, contribuem para “ridicularização, exclusão e disseminação de visão preconceituosa”, basta ler os comentários. Quando um rapaz aponta gordofobia, outro responde falando sobre “a banha que se esparrama nos outros em espaços públicos”, ou seja, responde sendo gordofóbico.

A gente segue lendo toda a racionalidade que essa publicação desencadeou e – ufa! – tem muita gente explicando para “a galera que não tá entendendo o post”. Eu já estava me perguntando em que realidade de pessoas obesas super se aceitando como são eles vivem, mas aí descobri! É esta realidade onde (entre aspas que é pra manter fidelidade ao original):

  • “O empoderamento do corpo obeso está matando as pessoas obesas”;
  • Existe uma “política de gourmetização da obesidade”;
  • “Esses pós-modernos estão deixando a população doente”, vamos odiá-los.

BERENICE SEGURA NÓS VAMOS BATER

Que mundo onde pessoas obesas estão empoderadíssimas, amando seus corpos, se aceitando como são e assim contribuindo para o aumento nos alarmantes índices de obesidade é esse? Porque eu estou vivendo num mundo um pouquinho diferente.

IS THIS REAL LIFE?

Argumento mais novo de todos: a culpa da obesidade é das pessoas obesas.

E dos pós-modernos.

Overlicious-5-Maneiras-Eficientes-para-Combater-a-Gordofobia-3