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____ janeiro 04, 2016 ____

GMO OMG

posterGMO OMG é um documentário dos Estados Unidos dirigido por Jeremy Seifert. A partir do fascínio de um de seus filhos por sementes, Jeremy saiu em busca de mais informações sobre os organismos geneticamente modificados (OGM pra gente, GMO em inglês). O gancho pro início do documentário é justamente a explicação a partir do interesse de seu filho e por isso as crianças (ele possui dois filhos meninos) e sua esposa estão presentes ao longo de todo o filme e muito do engajamento é pautado nessa reflexão: o que estamos dando aos nossos filhos? Certamente, é essa a sensibilidade que ele quer causar.

Mas não foi esse o ponto que achei interessante. A todo tempo, enquanto os filhos comem, ele os questiona sobre os OGM, o que eu acho errado, primeiro porque são crianças e sabe-se lá que tipo de relação com a comida essa abordagem negativa pode gerar; segundo, porque é no momento que eles estão comendo e esse não é, a meu ver, o momento certo pra falar sobre isso. Em outras palavras: chatão você estar comendo e a pessoa vir discursar exatamente sobre o que você está ingerindo. Apenas não é a hora pra isso.

Feita a crítica negativa, vamos a parte interessante: a negligência das grandes corporações em nos informar e nossa falta de possibilidade de escolha. Comida é política e das brabas. A gente tem um montão de produtos para escolher nos mercados, mas a verdadeira escolha, a do conhecimento da procedência, nos é negada. Outra questão é que a Monsanto e a Syngenta estão há muito tempo alterando o meio ambiente e tomando decisões das quais não fazemos parte. As empresas que produzem sementes geneticamente modificadas passam a ter o monopólio da semente, que uma vez que é feita em laboratório, é patenteada. O agricultor vai sempre precisar comprar dessas empresas, porque elas são as donas das sementes e porque essas sementes não darão novos frutos. Isso retira completamente a autonomia do agricultor e afeta diretamente a soberania alimentar, conforme mostrado no Haiti. Essas empresas atuam fora de seus países, se tornando as donas dos territórios, da alimentação e do meio ambiente de outras nações. E tudo isso nos foi entregue disfarçado do argumento: os geneticamente modificados podem acabar com a fome, porque são mais resistentes.

O argumento em torno dessa questão é científico e a ciência a favor dessas empresas (pra pesquisar a gente precisa de financiamento e as pesquisas que são financiadas são as que aqueles que tem muito dinheiro tem interesse em financiar) tende a menosprezar a experiência de quem trabalha no campo. Acabar com a fome não é o interesse, alimentos para alimentar a todos nós temos e podemos produzir, a questão nunca foi criar sementes em laboratório. O documentário acerta quando nos aponta a questão política e desperta no espectador o senso crítico para aquilo que muitas vezes não passa pelo nossa reflexão. Como eu sempre digo, comer é absolutamente natural pra gente e nós fazemos isso várias vezes por dia, mas pouco refletimos sobre isso.

GMO OMG ganhou os prêmios de Melhor Filme Júri Popular do Yale Environmental Film Festival e de Melhor documentário do Festival Internacional de Cinema de Berkshire.

____ dezembro 03, 2015 ____

Chef

Quando o filme Chef (Chef, 2014) estava em cartaz nos cinemas, eu imaginei que fosse um filme com uma proposta mais alternativa. Até acho que estava certa, porque era uma direção de Jon Favreau de menor orçamento, tendo em vista que ele dirigiu o sucesso dos filmes do Homem de Ferro com o Robert Downey Jr. Mas agora que finalmente assisti ao filme, diria que ele é bem sessão da tarde. Não tem nada de diferente ou irreverente, é uma história bem simples e previsível, mas que distrai e diverte.

chef-poster

Carl Casper trabalha num restaurante reconhecido, mas com uma visita marcada por um blogueiro gastronômico bastante influente, decide inovar no cardápio. Impedido pelo dono do restaurante de colocar em prática seu lado artístico e sua criatividade na cozinha, o chef acaba detonado pelo crítico gastronômico. O que acontece a partir disso é o declínio de sua imagem ao ser duramente criticado e ainda se tornar um viral na internet. O chef desempregado decide dar ouvidos à sua ex-esposa e cair na estrada, com um foodtruck de comida cubana. Junto à sua história profissional, existe um drama familiar, com o mal resolvido fim de seu casamento e uma relação distante com o filho.

O filme tem três aspectos interessantes aqui para o blog: a relação do blogueiro que escreve sobre gastronomia com os chefs, os pratos típicos mostrados no filme quando o personagem embarca na culinária de influência latino-americana nos EUA e a visão hierarquizada de um chef que trabalha em um restaurante e considera desvalorização vender comida em um trailer.  Não gostei do desfecho com o blogueiro e achei a relação com a ex-esposa pouco explorada, mas a parte profissional do personagem principal, sobretudo quando está na estrada, é bastante interessante de assistir. A gente termina o filme com vontade de comer e cozinhar.

____ dezembro 01, 2015 ____

Patrimônio Cultural: Feira da Reforma Agrária

Cícero Guedes foi um dos principais militantes do MST no Rio de Janeiro e estava assentado desde 1997 no assentamento Zumbi dos Palmares, onde empregava técnicas agrícolas sustentáveis e seus conhecimentos de agroecologia, referência para militantes e também para estudantes e professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Em 2013, Cícero estava com as famílias do MST que ocupavam a Usina Cambahyba, antigo engenho de açúcar desativado e propriedade rural improdutiva com 3.500 hectares de extensão. Foi visto pela última vez ao sair do local de bicicleta. Seu corpo foi encontrado com marcas de tiros na cabeça e nas costas. Aos 43 anos, Cícero deixava 5 filhos.

Desde 2013, os Sem Terra organizam a Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes na cidade do Rio de Janeiro. A sua 7ª edição ocorrerá no Largo da Carioca, nos dia 7, 8 e 9 de dezembro. Além da comercialização de cerca de 70 toneladas de alimentos diversificados, a feira também contará com shows, intervenções culturais e oficinas. Estará sendo celebrado o fato de que a feira que leva o nome do agricultor e militante Cícero Guedes, agora é patrimônio cultural do povo carioca.

Arroz, feijão, frutas, sucos, ervas medicinais e produtos derivados da cana de açúcar, como açúcar mascavo e melado, estarão sendo comercializados. O MST, que pergunta em sua página “quantas vezes pensamos nas outras possibilidades de arroz para além do branco?” convida a todos a conhecerem a variedade de produtos vindos de assentamentos da reforma agrária.

*A foto que ilustram o post foram tiradas na feira do ano passado.

Fontes: