Aceitação

____ julho 12, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 2: O Estigma da obesidade na área de saúde

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O discurso que estigmatiza o gordo não existe apenas no senso comum, mas dentro do próprio discurso médico, e contribui pra que pessoas gordas sejam vistas como preguiçosas, sem força de vontade, nojentas, porcas, incapazes e mais uma série de julgamentos que culpam o indivíduo gordo. Você não os vê assim? Então observe se o seu discurso não contribui para essa visão (e talvez observando o seu discurso você descubra um pouco sobre si mesmo).

O obeso sabe que está obeso. Ele vive numa sociedade que se certifica de lembrá-lo a todo instante de que seu peso está fora do considerado normal, seja ao não encontrar roupas adequadas ao seu tamanho, ao não conseguir emprego, não se reconhecendo na televisão (ou apenas se reconhecendo em personagens ridicularizados em sua condição), o obeso é xingado por desconhecidos (teve essa repórter sendo xingada enquanto trabalhava), crianças gordas sofrem humilhação nas escolas e, claro, o obeso costuma receber atendimento médico ruim. Os profissionais da área de saúde não estão fora dessa sociedade que condena gordos e os médicos reproduzem esses julgamentos ao atender seus pacientes (documentário ao final do post). Quando acontece dessa pessoa querer negar a sua condição é justamente para não lidar com toda a carga negativa que vem junto de sua classificação como obesa.

O que acontece é que as pessoas gordas não recebem o tratamento médico adequado tendo qualquer problema relatado relacionado ao seu peso e, por causa disso, algumas doenças não relacionados com o seu peso podem ser mascaradas. Vale dizer também que mulheres gordas são forçadas a fazer cesáreas desnecessárias porque seriam muito gordas para parir naturalmente, quando elas só precisavam de uma equipe médica que não estigmatizasse, que ouvisse e respeitasse a mulher e a analisasse com ética. Mas empurrar mulheres para violência obstétrica não é novidade. Recomendo o blog Mãe de peso. E aqui também o caso da Bruna que não conseguia operar sua gigantomastia porque os médicos a mandavam emagrecer.

atendimento ruim e preconceituoso que essas pessoas recebem quando procuram os profissionais da área da saúde faz com que elas não queiram voltar ao médico exatamente para não passarem novamente pelas situações de constrangimento e humilhação.

O estigma da obesidade presente na própria área da saúde, a negligência com outras doenças e o descaso com o que o paciente tem a dizer afastam as pessoas obesas do acompanhamento médico que elas possam precisar.

Sempre bom lembrar que existem obesos metabolicamente saudáveis e que, de qualquer forma, saúde e exames médicos com resultados exemplares não são condições para uma pessoa ser tratada com respeito ou para a sociedade aceitá-la.

Veja o documentário:

 

Links:

____ julho 11, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 1: Is this real life?

Uma imagem me chamou atenção ao aparecer compartilhada no meu feed de notícias do facebook. A imagem faz parte de um especial por “30 dias de racionalidade” (foco em: racionalidade), proposto pela página “Pós-Moderno” no Facebook. A imagem diz “Dia 12 – Obesidade não é empoderamento, é doença!” e vem acompanhada de um texto que fala em “gourmetização da obesidade” (wtf?), alega que o obeso não está precisando de “massagem no ego” e sim de ajuda médica e que jamais podemos militar para que essas pessoas obesas se aceitem como são. Eu não sei como exatamente uma pessoa não se aceitar como ela é pode afetar positivamente a saúde dela. Não se aceitar gera um bem estar danado!

A moderação da página diz, agora nos comentários: “Reitero que o posicionamento da página NÃO É de ridicularização, exclusão ou disseminação de visão preconceituosa contra quaisquer indivíduos com alteração de peso por mais que talvez isso não transpareça fortemente nessa imagem”.

Talvez. Não. Transpareça. Fortemente. (Vou adotar essa expressão pra vida!)

Não transparece e a imagem não veio sozinha. Ela veio com um texto. E ambos, texto e imagem, contribuem para “ridicularização, exclusão e disseminação de visão preconceituosa”, basta ler os comentários. Quando um rapaz aponta gordofobia, outro responde falando sobre “a banha que se esparrama nos outros em espaços públicos”, ou seja, responde sendo gordofóbico.

A gente segue lendo toda a racionalidade que essa publicação desencadeou e – ufa! – tem muita gente explicando para “a galera que não tá entendendo o post”. Eu já estava me perguntando em que realidade de pessoas obesas super se aceitando como são eles vivem, mas aí descobri! É esta realidade onde (entre aspas que é pra manter fidelidade ao original):

  • “O empoderamento do corpo obeso está matando as pessoas obesas”;
  • Existe uma “política de gourmetização da obesidade”;
  • “Esses pós-modernos estão deixando a população doente”, vamos odiá-los.

BERENICE SEGURA NÓS VAMOS BATER

Que mundo onde pessoas obesas estão empoderadíssimas, amando seus corpos, se aceitando como são e assim contribuindo para o aumento nos alarmantes índices de obesidade é esse? Porque eu estou vivendo num mundo um pouquinho diferente.

IS THIS REAL LIFE?

Argumento mais novo de todos: a culpa da obesidade é das pessoas obesas.

E dos pós-modernos.

Overlicious-5-Maneiras-Eficientes-para-Combater-a-Gordofobia-3

____ março 08, 2016 ____

Rindo da gorda

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Existe sobre a pessoa gorda um estigma da falta de força de vontade, pois ao que parece, com dedicação tudo se consegue. A premissa parece bonita, mas não é assim que as coisas funcionam numa sociedade gritantemente desigual e preconceituosa. Primeira coisa a dizer sobre essa ideia de “só é gordo quem quer” é a ideia de que ser gordo é algo necessariamente ruim, o que leva muita gente a se incomodar com gordas felizes com seus corpos, praticando com esforço diário um empoderamento tão difícil, uma vez que o padrão estético imposto é o oposto ao que elas são. “Só é gordo quem quer” traz em si a ideia de que não se deve ser gordo e isso reforça a invisibilização e a exclusão dessas pessoas ao se considerar, por exemplo, que oferecer roupas em tamanhos grandes, em quantidade e diversidade como são oferecidas em tamanhos menores é incentivar a obesidade. Nas palavras que ninguém diz, o pensamento é: Quem sabe se não tiverem o que vestir elas emagreçam? Uma lógica tacanha. Sabemos que pessoas gordas não recebem o tratamento adequado quando vão ao médico e deixam de ser chamadas para empregos por sua aparência física.

A mesma sociedade que estigmatiza o gordo no atendimento médico e nas oportunidades de emprego parece achar que esse estigma excludente é motivo de risada. A pessoa gorda deve, desde cedo, aprender a fazer piada de si mesma antes que os outros façam, porque ser engraçada seria a qualidade que resta àquela que não pode ter outras virtudes. Por que uma gorda seria considerada competente? Ou bonita?

Um canal do youtube, o Parafernalha, em um vídeo intitulado “A Gorda”, mostra uma filha tentando contar aos pais que está namorando uma mulher. Sua namorada está sentada à mesa com a família e o casal passa pelo receio de enfrentar a desaprovação da família pelo motivo óbvio de serem lésbicas. Os pais começam a demonstrar revolta com a situação até que, por fim, a indignação é com a filha estar namorando uma mulher gorda. A crítica seria boa, mas não achei as falas engraçadas, a condução da história segue um estilo de humor que eu, particularmente, não curto. Mas eu quero falar sobre uma frase dita ao final pelo pai da menina, associando a namorada gorda à Peppa Pig. Quando eu vi o vídeo, rolei os comentários e a maioria ria e reproduzia a piada da Peppa Pig, ignorando completamente o contexto restante do vídeo e o apontamento que fez dos preconceitos. A piada que ridiculariza diverte mais do que a crítica bem humorada aos preconceitos que carregamos. O motivo de riso dos que assistiram (a infantil comparação com a Peppa Pig) confirma os mesmos preconceitos que o vídeo mostra.

Isso me lembra uma história que nunca saiu da minha cabeça. Quando a minha irmã tinha 13 anos ouviu da nossa prima de mesma idade, que então fazia um cursinho de teatro, que se ela quisesse ser atriz deveria fazer comédia. E minha irmã, gorda, entendeu perfeitamente o comentário feito pela nossa prima, magra, e trouxe para casa o questionamento: por que nossa prima e tanta gente achava que a gorda só presta para ser motivo de risada? É diferente de ser uma boa atriz de comédia (ela pode ser engraçada sem precisar em momento algum ridicularizar sua forma física), assim como poderia ser de drama, favor perceber.

O documentário O Riso dos Outros traz a reflexão sobre o humor e seu papel político. Vejo muitos artistas (vi recentemente uma youtubber), insistindo no descompromisso político de seu trabalho, que seria apenas fazer rir, distrair e a reflexão ficaria por conta de outros. Ainda me espanta essa incapacidade ou falta de vontade (o famoso lavar as mãos) de ligar o que você faz no dia a dia (seus comentários, suas piadas, o que você acha bonito etc) com o que é a nossa sociedade hoje. A criação desse tipo de consciência crítica leva a uma responsabilidade maior sobre o que se diz, o que se faz, do que se ri. Dá trabalho, pois assim como o empoderamento de mulheres gordas, olharmos para os preconceitos que reproduzimos é também um exercício difícil e diário. Mas precisa ser feito.

Assista:

*Jessica Tauane, que interpreta a Paulinha (foi o nome que eu ouvi, mas não tenho certeza) no vídeo citado do canal Parafernalha tem dois canais no youtube bem interessantes: o Canal das Bee e o Gorda de Boa.

*Recomendo a leitura do blog Gorda e Sapatão.