Aceitação

____ dezembro 24, 2015 ____

Não vá se culpar

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não vá achar que deve explicações sobre o seu corpo pros outros

Vamos pensar em uma expressão conhecida: alimentação regrada. Regra lembra algo a ser seguido. Cumprir as regras lembra disciplina. Quando falamos em alimentação, não cumprir as regras remete a falta de força de vontade, preguiça, desvio de caráter. Volto a dizer que a gente usa a palavra “gordice” quando nos referimos a algo que estamos fazendo na nossa alimentação que foge do considerado saudável, que está errado segundo esses princípios tortos e preconceituosos que seguimos e que, portanto, é coisa de gordo. É gordice. (Se você não entendeu, basta substituir o “gordice” por “isso é coisa de mulher/de negro”, que são preconceitos mais identificáveis atualmente.) Então eu, sendo magra, mesmo que eu coma um chocotone inteiro sozinha, eu fiz uma “gordice”, eu boto na conta do gordo (você poder ler sobre isso aqui, é um texto curtinho e simples). Isso tem a ver com algumas marcas de nossa história. Uma delas é a de que você não precisa ser cristão para ter valores cristãos e carregar bem enraizada toda a influência da nossa cultura que é ocidental cristã. Gula é pecado. Se o gordo é associado ao que come demais, ele é um pecador. Percebe?

O pensamento é: a pessoa gorda é aquela preguiçosa e sem força de vontade. O gordo DEVE se sentir CULPADO. E para isto existe atualmente toda uma visão de foco, força e fé (hashtag, hashtag, hashtag). Se alguém que participou do Medida Certa (aquele quadro do Fantástico) volta a engordar após o programa, perdeu o foco. Cadê força de vontade? E nessas horas, somos todos policiais do peso. Galera assiste “Além do peso” e acha certo o preparador físico humilhar os participantes, como se isso fosse incentivador de alguma coisa. É só doentio. Primeira coisa: dieta restritiva e visão de corpo baseada em medidas são métodos falhos. Segunda coisa (e mais importante!): ninguém te deve explicações sobre o formato do corpo que tem. Deal with it. Apenas supere.

Quando era vegetariana, ouvi de uma amiga nutricionista que não comer carne fazia mal e por isso eu não devia ser vegetariana. Sabe o quão equivocado é isso? Eu, que não cursei nutrição, sei que o ferro da carne é digerido com mais facilidade pelo nosso organismo que o ferro dos vegetais, mas que pra ajudar na absorção do ferro, a gente consome vitamina C das frutas. Que a combinação de arroz com feijão é fonte de proteínas. Que dá pra substituir a carne e ser saudável. O que eu quero dizer com isso? Que a formação de nutrição ainda é conservadora (todas as formações são, eu faço História e não é diferente). Que tem um monte de nutricionista por aí propagandeando essa falta de informação! E, da mesma forma, um monte de nutricionistas compartilhando da opinião que a gente vê na imagem com o cãozinho. Ela diz “Não vá por a culpa no natal. Você está gordo desde agosto”. Essa imagem chegou a mim reproduzida na internet por uma nutricionista.

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olha só como em apenas duas semanas eu passei a cagar pra sua opinião

Pessoas gordas não são, na maioria das vezes, bem atendidas pelos médicos. Isso é comprovado e aqui tem um documentário da Universidade de Yale sobre weigth bias. Se você é gordo ou gorda e vai ao médico, não importam seus sintomas, o diagnóstico é que você precisa emagrecer. E isso é errado em tantos níveis! Todo mundo merece respeito e qualquer um que vá ao médico deve ter seus sintomas escutados. Caso contrário, isso é preconceito. E a nossa sociedade é extremamente preconceituosa com gordos. Sim, extremamente.

A gente vê um monte de gente disfarçando gordofobia de preocupação com a saúde (recomendo ler este texto). Dica: a preocupação nunca é com a saúde. É só com o fato de você estar destoando de um padrão, sendo uma afronta à forma como essa pessoa “conselheira e preocupada” (apenas risos) aprendeu a ver a vida. Se for gorda e de bem com a vida, cuidado! As pessoas não toleram isso. Como assim é gorda e está feliz e não sente culpa e todas essas inseguranças que a sociedade prega que você deveria sentir? As pessoas usam “nossa, você emagreceu!” ou “você está magra” como elogios. Não importa como você emagreceu (o que pode não ter sido nada saudável), importa que está magra. Outra dica: “Gorda” não é ofensa e “magra” não é elogio.

Aqui nesse texto do blog O Corpo é Meu, a nutricionista Carol Morais, comenta uma publicação da CNN, que diz que mulheres gordas com problemas para engravidar tem dificuldades em encontrar médicos que queiram ajudá-las a conseguir engravidar, que pessoas gordas tem maior risco de receber um diagnóstico errado e menor probabilidade de terem um câncer diagnosticado precocemente. Tem dificuldade na hora de fazer exames por não terem equipamentos adequados ao seu peso, como comentado aqui. A Bruna não conseguia operar sua gigantomastia (em dois anos seus seios foram do tamanho 46 para o 60) e foi humilhada pelos médicos por conta de seu peso. Então, não use o seu discurso médico, nutricionista ou da área da saúde como validador da culpabilização do gordo. Vá rever seus preconceitos e se informar. Respeite as pessoas, todas elas, para assim garantir o respeito e o bom atendimento à seus pacientes.

Discurso médico também é construção social. Já afirmou um dia que negros eram inferiores à brancos e até hoje sustenta que mulheres são mais fracas que homens. Migos e migas, questionem tudo e olhem mais criticamente o que parece incontestável.

E você que “está gordo desde agosto”, você não deve NADA a NINGUÉM. Culpa é um sentimento destrutivo e relações rígidas com a alimentação são desenvolvedoras de transtornos alimentares. Nutricionistas deveriam saber disso.

Bom natal e aproveitem as delícias!

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vai ter bingo nas festinhas de fim de ano?

(ó, o post tá cheio de links valiosíssimos!)

____ novembro 23, 2015 ____

Não odeie seu corpo

Selecionei alguns textos pra gente refletir sobre o estigma da obesidade – a visão de que uma pessoa gorda é preguiçosa, descuidada, não tem força de vontade, nem vergonha na cara. Mas contra essa chuva de preconceito e senso comum, tem gente escrevendo coisa bacana na internet e incentivando a aceitação do próprio corpo. Vamos ler?

1| Projeto Verão é uma besteira, do blog Não sou Exposição

Sim, tem gente que acha que oferecer roupas em tamanhos maiores é incentivar a obesidade. Tem gente que acha que alguém obeso deve usar maiô e ter o bom senso de cobrir o corpo. Tem gente que acha que se o gordo não for ridicularizado por ser gordo, ou ao menos lembrado disso pelos outros, ele também estará sendo incentivado a se manter gordo. Primeiro, a ideia errada de que o gordo é necessariamente doente. Depois, a noção perversa de que é necessário fazer o outro se sentir mal para que ele mude e se adeque ao que a sociedade considera correto. E o que tem a ver o formato do seu corpo com o fato de poder ir à praia, usar um biquíni e utilizar de um espaço gratuito? Nada, né? Então por que achar que precisamos nos preparar, nos privar e nos esforçar para conquistar o direito de usar um biquíni? Eu, hein.

2| Mire-se no exemplo desta âncora de TV, do blog Escreva Lola Escreva

Imaginem só que um homem muito preocupado com a saúde dos outros assistia à televisão quando achou que a âncora de um telejornal certamente deveria se cuidar, emagrecer e buscar ajuda médica porque estava fora do padrão socialmente aceitável. Além disso, aparecendo na televisão com aquela forma ela poderia estar incentivando a obesidade, um péssimo exemplo às garotas.

Acontece que o mundo com o qual nos preocupamos é o mundo onde os pais assistindo à televisão fazem comentários preconceituosos sobre uma apresentadora considerada gorda e podem assim estar incentivando seus filhos a serem intolerantes com a diferença e ofenderem e recriminarem na escola outras crianças.

“Vocês já viram nos comentários de qualquer post meu sobre aceitação do corpo acusações a minha irresponsabilidade — dizer pra pessoas gordas terem autoestima é fazer com que todo mundo vire gordo. A mensagem subliminar é: sem ser agredida constantemente, como a pessoa vai querer mudar? Tenho más notícias pra você, troll preocupado. Se bullying funcionasse, não existiriam gordos. Porque todo gordo já foi xingado exclusivamente pela sua forma física.”

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3| Eu me sinto gorda(o), do blog O Corpo é Meu

A nutricionista Ana Carolina fala sobre a falta de sentido em dizer que se sente gorda ou gordo, uma vez que “gordo” não é um sentimento. Uma pessoa, ao dizer que se sente gorda, está se comparando com o que? Com um padrão inatingível? Está se sentindo assim por cobranças externas? E mais, às vezes a palavra “gordo” vem substituindo outras questões, tristezas e insatisfações que deviam ser melhor nomeadas, para que não se despeje no corpo uma frustração que deve ser identificada e tratada.

4| Como pode um Pierce Brosnan viver com uma mulher gorda, do blog Escreva Lola Escreva

A Lola é ótima e eu leio seu blog há muitos anos, então mais um texto dela. Em Como pode um Pierce Brosnan viver com uma mulher gorda, Lola comenta sobre as repercussões de fotos de Keely Shaye-Smith na praia, em férias com o marido, Pierce Brosnan. As reflexões são interessantes: suas fotos de biquíni fizeram com que Keely fosse chamada de “porca”, “baleia” e “hipopótamo”. Comentários surgiram sobre como Pierce Brosnan ainda estaria com ela (afinal, como se pode estar em um relacionamento com uma mulher gorda?!), sobre ele provavelmente não transar com ela (como se pode transar com uma gorda?) e pior, muita gente parabeniza o homem por não ter largado sua mulher “fora de forma” (claro, vamos fazer uma estátua para esse super homem por ele estar casado com uma mulher gorda). Também tinham os comentários dos preocupados com o peso de Keely por uma questão de saúde. Sempre tem quem disfarça sua gordofobia de preocupação com a saúde. São os mais clichês: o elogio ao ROSTO bonito (ROSTO diferente de CORPO) e preocupação com a saúde, sempre formas de indicar para a pessoa que sua aparência fora do padrão está incomodando e algo precisa ser feito a respeito.

Vinte anos atrás a Naomi Wolf já apontava que, como mulher é vista como troféu, e como mulher gorda é considerada um ser desprezível, não dava pra um homem, ainda mais um de sucesso, ficar com uma mulher gorda. Equivale a um milionário andar com um calhambeque caindo aos pedaços, ou com roupa rasgada. Por que ele não troca por algo melhor? Ele pode!

5| Livro infantil incentiva imagem corporal positiva, do blog O Corpo é Meu

Se tem livro infantil que acha que educa a criança ao dizer que emagrecendo ela consegue atingir seus objetivos, ter sucesso, ser aceita e feliz, também tem livro infantil dizendo que você não precisa se encaixar em padrão nenhum pra seguir seu sonho. Nesse caso, a personagem ouviu que não podia ser patinadora porque estava gorda. E aí ela foi lá e aprendeu que o tamanho do seu corpo não era impeditivo para conquistar o que quisesse. Não é lindo?