Diário

____ abril 29, 2017 ____

Lenha no fogão

Conheci o Roteiro Lenha no Fogão através do texto da Constance Escobar em seu blog Pra quem quiser me visitar. Como alguém que cursou a graduação em História sempre buscando sua conexão com a alimentação, o roteiro pareceu uma oportunidade única de estar em contato com aquilo que tanto me instiga. A alimentação nos coloca em contato com os saberes daqueles que fazem, das mãos que mexem as colheres, das vozes que contam as histórias. História oral, tradição, memória.

O roteiro é resultado da pesquisa do mestrado em Memória Social (UNIRIO) da Juliana Venturelli, que se propôs a analisar as receitas culinárias do sul de Minas a partir dos cadernos e das narrativas orais das famílias da região. Assim, em três dias de roteiros, durante o feriado de Páscoa, experimentamos os mais diversos sabores de São Lourenço, Maria da Fé, Cruzília, São Vicente de Minas, Serranos e Baependi, sendo recebidos por aqueles que cozinham e contam histórias.

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Quando estivemos no ateliê Gente de fibra, o cheiro do local aonde são feitas as artes a partir de papel kraft e fibra de bananeira me levou de volta aos laboratórios de química e microbiologia da escola técnica, nos meus tempos de ensino médio, coisa de uma década atrás. No dia seguinte, na oficina de bala de coco, vendo a Hilma puxar a massa e depois experimentando a bala com a textura elástica, voltei ainda mais no tempo, lembrando da minha infância, quando eu tinha o privilégio de comer as balas de coco nesse ponto.

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Enquanto algumas experiências me levavam de volta ao passado, outras pareceram absolutamente novas: o doce de laranja da doceira e bordadeira Dona Estela tinha uma consistência maravilhosa e um sabor que mantinha o suave amargor da fruta. Este doce de laranja em Maria da Fé e a manteiga que comemos no Casarão da Neusa, em Serranos, me deixaram com a sensação de que certos sabores só se experimenta em Minas.

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O que também se mostra característico do local de nosso roteiro é o acolhimento das cozinheiras e cozinheiros que nos recebem cheios de histórias para contar, algumas bastante engraçadas, como as contadas por Dito, no seu restaurante Forno Quente, em São Vicente de Minas. Dito nos recebeu com um almoço cheio de opções, dentre as quais eu guardei especialmente o sabor do antepasto de jiló, do frango ora-pro-nobis, da abóbora e dos doces da sobremesa (eram oito!).

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Outras boas histórias e mesa farta nos reservavam as irmãs Marita e Miloca, na Fazenda São José da Vargem. Após passeio pelo casarão histórico, um almoço feito por Miloca foi a refeição que fechou nosso roteiro. Abóbora, costela, tutu, linguiça e torresmo, além de uma cachacinha com limão coroaram o fim de uma viagem entre sabores que são únicos e familiares ao mesmo tempo. O acolhimento dos mineiros tem dessas: a gente mal chegou e já é de casa, a gente vai embora já pensando em voltar.

____ março 10, 2017 ____

A fome é logo ali

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Comer ontem no bandejão do IFCS fez com que eu lembrasse de uma coisa que aconteceu há doze anos.

Quando eu estudava no Instituto de Educação, eu ficava na escola praticamente o dia todo. O refeitório servia café da manhã, almoço e lanche enquanto eu estava lá. O café da manhã era por volta das dez da manhã. Lembro de um dia em que avisaram que o café passaria a ser mais cedo. Não lembro o horário, só lembro que era mais cedo. Eu, do alto do meu privilégio, achei ruim. Nesse horário eu ainda não estava com fome! Realmente não passou pela minha cabeça que nem todo mundo que estudava lá tinha o privilégio de sair de casa já tendo tomado café da manhã. Hoje isso me parece óbvio, mas há doze anos não era. Alguém precisou me explicar que a refeição tinha sido adiantada porque o café da manhã oferecido pela escola era a primeira refeição de muitos alunos e eles precisavam estar alimentados para tirar proveito da aula. Alguém precisou me explicar que alguns desmaiavam de fome. Eu senti vergonha por não ter pensado isso sozinha e principalmente por ter reclamado. Desmaiar de fome nunca foi parte da minha realidade e até então eu achava que só era a realidade de pessoas muito distantes de mim ou de gerações anteriores a mim na minha família, mas não de alguém que estudasse no mesmo lugar que eu. Antes dali, eu estudava em escola particular e pagava todo dia pela comida da cantina. Acho que eu nunca tinha pensado em alunos que dependiam exclusivamente da comida da escola. Aquele dia eu aprendi que a fome não existia num lugar distante ou em outro tempo. A fome era logo ali.

***
Em relação ao bandejão na universidade, o acesso à comida é importante para que pessoas capazes de trazer um olhar diferente para o estudo da sociedade estejam presentes nos espaços acadêmicos dos quais elas vem historicamente sendo excluídas. O almoço e o jantar oferecidos pela universidade democratizam os espaços tradicionais de construção de saber e diversificam esses saberes. Quando o dinheiro necessário para comida impossibilita a permanência de alunos nesses espaços, a gente perde. Mas ontem, não. Ontem tinha arroz e feijão. Ontem a gente ganhou.

____ fevereiro 10, 2017 ____

A tal da ausência

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

 

O vovô e a vovó sempre foram absolutamente presentes na minha vida. Eu sei que pro vovô não estar ao meu lado, o único motivo existente é: ele não pode. E pela primeira vez em quase vinte e sete anos, o vovô não pode.

 

Eu falei em vinte e sete anos, a vovó me falou em sessenta e um. Coisa que eu só posso imaginar e respeitar, já que a vida dela ao lado do meu avô é bem maior que a minha vida todinha.

 

A vovó sempre colocou a comida pro vovô e acho que isso nunca foi um questionamento pra ela como é pra mim – cuidar da casa e do marido, fazer a comida, servir a comida. Eles comem juntos. Mas é junto mesmo. Eu sempre a vi pegar comida do prato dele ou então tirar comida do prato dela e colocar no dele, com o garfo, com a mão. Quando eles comem frutas, ela vai partindo com a faca, uns pedaços pra ele, outros pra ela. A mesma fruta. Eu também já vi isso muitas vezes. Esses (meus) pequenos privilégios do cotidiano.

 

Dia desses a gente comeu manga. Ela comeu a dela, eu comi a minha. Ela disse que precisava cortar a manga de um jeito diferente. Porque a vida toda ela vinha partindo a manga do mesmo jeito e, nos últimos sessenta e um anos, ela comia manga com o meu avô. Com ele no hospital, partir a manga do mesmo jeito de sempre a fazia lembrar do vovô. E lembrar do vovô era lembrar que agora ele não podia estar ali pra comer a manga com ela.

 

Dia desses eu acordei e vi a vovó sorrindo na cozinha, perguntando se eu achei a roupa nova dela bonita. Um conjuntinho todo estampado com desenhos de sorvetes e picolés. Achei bonita sim e tirei uma foto com o celular. Ela estava cozinhando galinha e disse que ia fazer com o caldinho que eu gostava, pra molhar o pão. Desde criança eu gosto de molhar o pão francês no caldo ainda na panela. Aquele pão com o caldo de galinha foi como um abraço.

 

Vovô está melhorando. Depois de quase três semanas na UTI, hoje ele foi pro quarto. O médico disse que ele é muito forte. E é mesmo. Sempre foi. A gente segue sendo forte aqui também, lidando com a ausência como a gente pode, cortando a manga diferente, molhando um pedaço de pão no caldo de galinha.