Diário

____ janeiro 07, 2016 ____

Retrospectiva 2015

Já estamos em 2016 e teria sido melhor publicar a retrospectiva ao final de 2015, mas eu sequer tinha feito algo além de um esboço. Hoje resolvi retomar o esboço e desenvolver um texto com base nos acontecimentos de 2015 que se relacionam com o Sabor Diário e que mais considerei relevantes. Então, vamos lá.

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Comecei o ano fazendo um curso de extensão em Jornalismo Gastronômico na FACHA, com aulas ministradas pela Juliana Dias. Fiquei sabendo do curso através de uma amiga formada em gastronomia e sou grata a ela por isso. O curso me envolveu mais politicamente com a alimentação (um caminho que eu já vinha seguindo por causa da faculdade, através das disciplinas de Questão Agrária e História da Alimentação), me ajudou a ver que mensagem eu quero passar com o blog e me deu um montão de novas informações e reflexões, como novos autores, dicas de livros e claro, conhecimentos sobre jornalismo voltado para a gastronomia, coisa que eu não tinha. Ah, embora tenha escrito sobre o curso aqui no blog em março, eu o fiz em janeiro e fevereiro. Também indico o texto Alimento vs. Produto Comestível como uma das coisas que escrevi inspirada por esses novos aprendizados.

Em março fui ao evento Conhecer e Comer: Caminhos para redescobrir a comida de verdade, evento de lançamento do Guia Alimentar para 2015. O encontro voltado para discussão da alimentação lotou o auditório roxinho do CCMN, da UFRJ, no Fundão. Foi uma experiência intensa de troca de conhecimento com profissionais de diferentes áreas ligadas à alimentação e também um momento de orgulho desse material produzido pelo nosso país, difundindo informação sobre comida e indo na contramão das indústrias de ultraprocessados, que não ficaram nada contentes com o conteúdo desse Guia. O evento também me rendeu a primeira cobertura com jornalismo gastronômico e o meu texto foi publicado no Malagueta News.

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Também fui convidada para dois encontros de blogueiros de gastronomia: O Circuito Galli Digital e o Circuito do Vinho, na Gruta São Sebastião. Esses eventos são ótimos pra conhecer outras pessoas publicando conteúdos bacanas na área, vejo como um momento de troca em torno dessa coisa maravilhosa da vida que é comer! Eu não sou uma pessoa extrovertida, então não circulo pelo evento falando com todo mundo, mas consegui trocar ideias com pessoas interessantes como a Roberta Araújo (divertidíssima), a Francelle Jacobsen, o casal do Morando Junto  (fofos e gentis, que me deram carona de carro para casa) e a Beatriz, que também produz um conteúdo interessante no Raízes Brasil.

Durante meses ao longo de 2015, eu, a professora Lourdes e a professora Denise, nos encontramos semanalmente para discussão e trocas de informações sobre História da Alimentação, a fim de levar aos alunos do curso técnico em alimentos do IFRJ e demais interessados no assunto, um conteúdo bacana e crítico sobre a alimentação. Assim, em outubro, oferecemos a Oficina Em Pratos Limpos: Uma discussão sobre História da Alimentação, sobre a qual ainda preciso escrever aqui. O melhor de tudo é que todo o trabalho envolvendo a oficina nos levou a ideias futuras.

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Em 2015 eu conheci uma área da nutrição chamada Nutrição Comportamental, principalmente através do blog O Corpo é Meu, que me levou a buscar mais informações e leituras sobre o assunto. Essas novas ideias provocaram mais um sacode no meu olhar para a comida, para o corpo e para a forma como a nutrição como ciência está estabelecida no nosso mundinho tão acostumado a lidar com números, medidas, metas e disciplina, além  de preconceitos tão enraizados com o formato dos corpos que a gente muitas vezes não se dá conta de que eles estão aí a todo tempo nos nossos comentários, piadas, objetivos, nos noticiários… Pra entender melhor o que estou falando, indico aqui três textos que produzi inspirada por essa visão: Dieta: Restrição, Compulsão e Culpa, Não odeie seu corpo e Não vá se culpar.

Por fim, em termos de experiências gastronômicas, eu destacaria a já conhecida comilança na Associação Nikkei, no evento Sabores do Japão e a descoberta do hambúrguer de pão de queijo, do Macho Gourmet.

Foi muito bom fazer a retrospectiva e ver que foi um ano rico de aprendizado, reflexão, experiências, trabalhos e encontros, tudo em torno desse assunto que eu amo que é a comida. Não deixem de visitar os links do texto e conhecer as coisas que escrevi ao longo de 2015.

Para me ajudar na divulgação, curta a página do Sabor Diário no facebook.

Feliz Ano Novo!

____ março 22, 2015 ____

A vovó e a cozinha

Cresci ouvindo as histórias das festas de família das quais não participei ou já não recordava. O assunto comentado era sempre a comida, que representa nessas histórias orais de memória e de afeto, um papel para muito além da simples alimentação. Quando ouço minha mãe descrever essas festas de aniversários, casamentos e final de ano, ela sempre ressalta a função da minha avó e suas irmãs, reunidas na cozinha, colocando a mão na massa e conversando, enquanto bebiam descontraídas algumas cervejas. Uma verdadeira festa antes da festa propriamente dita. Minha avó fazia bolos para casamento, segundo a minha mãe, lindíssimos e gostosos. 

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O aumento da praticidade e da variedade da oferta dos alimentos com comidas prontas, sucos prontos, refrigerantes, biscoitos e o avanço das redes de fast food, tudo isso contribuiu para um afastamento das relações familiares – em conjunto com um montão de mudanças que o mundo sofreu nessa direção -, o que chama a minha atenção sobre como o fator alimentação e as transformações que ele sofre ao longo do tempo afetam as relações com as pessoas, com a rotina e com o mundo em que vivemos. Agora cada um escolhe o que vai comer, saem “à caça” do seu alimento na loja favorita da praça de alimentação e voltam ao ponto de encontro numa mesa onde se sentam e comem de forma pouco familiar. Gula e voracidade, entre estresse nas filas para pagar, crianças birrentas e pais acomodados num domingo à tarde, saindo de suas casas direto para um inferno, o qual chamam de “passeio”. Há de se ter passeios mais saudáveis e interativos para uma família do que ir à lanchonete do palhaço.

Toda essa trajetória se dá, sobretudo, em termos de século XX. Indo para antes deste bafafá sobre refeições em família e refeições rápidas e impessoais, preciso falar do fim da mão de obra escrava, que acaba por levar a mulher branca para as cozinhas. O Brasil é um país feito em cima da escravidão e do patriarcalismo, então substituir o trabalho da escrava (mão de obra feminina e negra) pelo da mulher branca, presa ao ambiente privado e com a vida pública limitada, não é algo que surpreenda. Assim, as mulheres de uma forma geral foram para as cozinhas. Minha avó é uma mulher cuja vida foi muito limitada por esse patriarcalismo e eu mal consigo compreender como ela fazia bolos tão maravilhosos, se hoje faz de tudo pra passar longe do fogão e é adepta de carteirinha da comida de micro-ondas. Para ela, aqueles anos de trabalho na cozinha tinham chegado ao fim. Apesar do divertimento com as irmãs, o ato de cozinhar no dia a dia é associado por ela à opressão. A libertação dela veio com a tecnologia dos produtos voltados para a cozinha e, portanto, para a mulher – sim, porque a publicidade dos produtos para a casa ainda hoje é voltada para nós.

É preciso nadar contra a corrente, retomar o estar à mesa, a intimidade em torno da comida, as conversas em família, o se reconhecer no alimento feito e ter afeto durante uma refeição, sem retomarmos o machismo e o patriarcalismo que marcaram e marcam nossas relações sociais, para que possamos olhar a cozinha e o cozinhar com toda a sua potencialidade de cultura e de experiência. Isto é não romantizar o passado e manter o olhar atento para os passos que damos em direção ao futuro. Que bom que eu posso ver a minha relação com a cozinha de forma libertadora, ao contrário de minha avó.

____ março 18, 2015 ____

Germinando

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Achava estar insatisfeita com a vida, mas estava insatisfeita com a ausência dela. Compreendi ao ver as sementes de girassol germinando na janela do meu quarto. Sorria feito boba, chamei minha mãe pra ver. “Mãe, tá germinando. Olha!” Sentia uma sensação que há tempos não sentia e talvez fosse mesmo felicidade, mas não convinha nomear. Não tinha importância saber o nome daquilo. O que importava era a sintonia que sentia. O girassol que germinava visível ali na janela do meu quarto. E aquilo que germinava invisível, dentro de mim.