Diário

____ dezembro 27, 2014 ____

Depressão não é drama

Depressão não é drama, nem cena. Eu gostaria que fosse. Gostaria de sofrer em Paris, como dizem. De chorar na chuva toda gata com o cabelo molhado enquanto uma música linda toca ao fundo. De estar triste na cama me afogando em chocolate e maquiada com o batom da estação. Ou, num plano mais real, eu queria mesmo fazer uma ceninha, um bico enorme, ganhar uma atenção, uns carinhos e seguir em frente. Seria lindo e não seria depressão.

A depressão paralisa. Quando tenho minhas crises, tarefas simples do dia a dia tornam-se monstruosamente difíceis de serem executadas. Eu tenho a sorte de ter amigos que buscam saber se acordei bem, se tomei banho, se escovei os dentes, se levantei da cama, se me alimentei, se fui trabalhar. Há quem diga que a depressão afasta as pessoas. Verdade. Afasta os babacas e os egoístas.

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Eu estava chorando no ponto de ônibus e uma moça se aproximou. Perguntou se eu estava passando mal, se queria conversar. Eu disse que não estava bem, mas que um amigo estava vindo me encontrar e agradeci. Ela continuou ali, parada me olhando, e passado algum tempo, perguntou se eu queria dar uma volta pelas lojas da Praça Saens Peña para espairecer. Vejam só, alguém que se dispõe a mudar um pouco os planos dela (quem sabe chegar atrasada? Afinal, ela estava no ponto de ônibus) por uma pessoa completamente estranha.

Bom, excluídos os babacas e os egoístas, a gente precisa entender que nossos amigos não são responsáveis pela nossa melhora e seria injusto de nossa parte jogar neles essa responsabilidade. As pessoas que nos amam são o reconhecimento de que temos valor. Oras, eu posso te mostrar seu valor, mas não posso fazer com que você de fato o reconheça.

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Quando eu acordei sábado com a boca seca, sem nenhum apetite, após uma noite de sono picotada em cochilos, eu só pensava “não vou aguentar, não vou aguentar”. Pois eu sei que nessa “brincadeira” já cheguei aos 40kg e morri de medo de entrar na casa dos trinta, sendo uma mocinha maior de idade com 1.66m. Mas, o que eu não aguentaria? Eu não aguentaria de novo encarar o vazio e a paralisação. Eu não aguentaria, mais uma vez na minha vida, reaprender a comer, a levantar da cama, a sair de casa. Mas, olha, eu tô aguentando. E qual não é o meu orgulho ao perceber que eu sempre me refaço? Que eu enfrento minhas limitações? Que, afinal, eu aguento.

A gente vive numa sociedade hipócrita onde o sofrimento, tão natural, é quase obsceno. Mas, se eu estou no fundo do poço, antes de tentar desesperadamente subir, não é melhor tatear, olhar ao redor, reconhecer o espaço? Cedo ou tarde, meu bem, estarei lá novamente. É mais fácil enfrentar o (re)conhecido. Lembro da música: “Mexo e remexo na Inquisição, só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão.”

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A sociedade hipócrita. Aquela que não dá nome aos bois. Penso na mulher gorda que é chamada de cheinha, como se a palavra “gorda” trouxesse em si uma ofensa, que só existe na cabeça de quem usa eufemismos para disfarçar seus preconceitos. Penso na mãe que apresenta o namorado de seu filho gay como um “amigo”, com medo do julgamento alheio.

Chamar de “drama” serve para não admitir ou aceitar a depressão. Saibam que, durante um tempo, a alcunha de dramática me serviu bem para não encarar os fatos. Gabriela drama queen. Entendam: existe uma coisa chamada depressão. Que é ruim como muitas coisas são ruins nessa vida. Que melhora com o tempo quando se encara, não quando se ignora. É encarando a tristeza que se coloca um prazo de validade nela e que se prepara para quando o monstro vier outra vez. E ele virá. Mas também virão amigos, passeios ao final da tarde, viagens divertidas, risadas em meio à rotina. Enfim, a vida.

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Escrevi este texto em 21/10/2014 e publico aqui por todas as pessoas que, como eu, sofrem com isso. Lindinhos e lindinhas, que 2015 traga a cada um de nós uma enorme fé nos recomeços.

As imagens usadas nessa publicação são obras de: (1) e (3) Pierre Mornet; (2) e (4) John Register.

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Um 2015 todo lindão,

____ junho 20, 2014 ____

Apresentação

Quando eu tinha quinze anos passei para um curso técnico integrado ao ensino médio: era o curso Técnico em Alimentos no então CEFET Química (atual IFRJ). Foi lá onde conheci as imensas possibilidades de trabalho na área da alimentação. Lá, eu estudava a parte química dos alimentos, mas também tinha microbiologia, panificação, processamento vegetal, boas práticas de fabricação. Eu tanto fiz análise de cloreto de sódio em extrato de tomate e análise de salmonella, como fiz doce em compota e pizza. Assim como na faculdade, a gente vai estudando e percebendo que aquela área é bastante vasta e vai notando que se identifica mais com uma parte do que com outra. Lá eu descobri que amava estudar alimentos, mas não queria trabalhar como técnica numa indústria estressante.

Fui fazer faculdade de História. O motivo? Sempre amei História e felizmente (ou infelizmente, às vezes) acabo tomando minhas decisões baseada nessa coisa chamada “amor” e acredito sim que a gente pode (e deve!) unir trabalho e paixão. Resolvi que queria me especializar em História da Alimentação. É lógico que a alimentação é uma via possível para se estudar História! E é fascinante!

Muito da minha vida se relaciona com essa minha curiosidade: gosto de comida vegetariana, gosto de filmes e livros cujas histórias tem como foco central ou pano de fundo a questão alimentícia, gosto de passear por aí e buscar opções veganas, conhecer restaurantes e lanchonetes, descobrir receitas, conhecer pessoas. Espero trazer a vocês um pouco da complexidade que envolve estar a mesa e escolher o que colocar no prato. Que envolve sociabilidade e prazer. Sentidos e sentimentos. E, acima de tudo, amor. Foi com amor que eu criei este espaço e espero que, tal qual uma bela apresentação de um prato, a apresentação desse blog inspire vocês a apreciá-lo.