Eventos

____ dezembro 04, 2014 ____

Um Jantar com Benjamin

No Museu Casa de Benjamin Constant, em Santa Teresa, aqui no Rio, rolou uma intervenção artística que durou pouco mais de um mês. Chamada “Um Jantar com Benjamin“, a proposta era pensarmos quem estaria à mesa com Benjamin Constant e sua esposa, Maria Joaquina, antigos moradores da casa. Como muitos amigos meus não sabiam, vou explicar: o museu é um “Museu Casa” justamente por isso, ele abrigou a família de Benjamin Constant ao final do século XIX e meados do XX e, logicamente, a intervenção foi montada na sala de jantar.

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Colocamos à mesa personagens ligados ao positivismo e/ou à política republicana e o final do Império, contexto no qual Benjamin Constant foi atuante. Auguste Comte e Clotilde de Vaux, por exemplo, em uma situação real, jamais poderiam estar presentes, mas faziam parte da mesa pelo compartilhamento de ideais. Enquanto professor da Escola Militar, Benjamin difundiu entre seus alunos os ideais do positivismo.

Com pratos e bandejas feitos em vidro reciclado pelo artista plástico Paulo Vergueiro, as cores temas da mesa eram o verde e amarelo reforçando a ideia de patriotismo presente não só na visão política e militar do início da República como também nas datas a serem comemoradas em novembro, como a própria Proclamação da República, dia 15, e o Dia da Bandeira, dia 19. Já os talheres, a fruteira, a jarra e a sorveteira (localizada em outra mesa próxima) pertencem ao Museu e são do século XIX. Nas pontas da mesa, frente a frente, estavam D. Pedro II e Benjamin Constant, representando a oposição entre Império e República. As imagens abaixo eu retirei do blog do museu e a qualidade não está muito boa para a largura da caixa de postagem (700px), mas dá pra ter uma noção.

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Pude ajudar na concepção do jantar, pensando no cardápio e pesquisando a biografia dos “convidados“, mas o meu trabalho ficou mais concentrado em uma mesa (também parte do mobiliário da casa), próxima ao lugar de D. Pedro II. A sorveteira, normalmente mostrada aos visitantes atrás de um vidro, foi colocada em evidência nessa mesa junto à receita do sorvete de pitanga, um dos preferidos do Imperador, que costumava ir saboreá-lo na Confeitaria Francioni, na então Rua Direita, hoje Rua Primeiro de Março. Além da curiosidade do visitante em relação à sorveteira do século XIX, presente do genro de Benjamin Constant à sua sogra, e trazida dos EUA, havia também um livro que relata a gastronomia do Rio de Janeiro nesse período. O livro “Machado de Assis: Relíquias Culinárias”, de Rosa Belluzzo, busca fazer um traçado gastronômico das andanças do escritor pela cidade e ajuda a compreender esse momento da História. Abaixo, a sorveteira.

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Por fim, não posso deixar de ressaltar a importância da reflexão da História contada como a história de heróis e vilões, a história dos grandes fatos e a própria noção do que é o positivismo e sua influência em nossa história, uma vez que a História não se faz apenas com datas ou nomes reconhecidos e é necessário problematizar a forma como os mesmos nos são apresentados, pois toda a apresentação do Brasil República se dá, ainda hoje, em cima do esforço de se construir uma identidade e memória nacional, especialmente pela forma como foi conduzido o ensino de história no Estado Novo e durante a Ditadura Militar. E toda construção pode e deve ser desconstruída e questionada.

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Tivemos dois interessantes momentos de confraternização entre funcionários e com os visitantes: o primeiro na abertura da intervenção artística e o segundo no Dia da Bandeira, no qual foram servidos sorvete de pitanga da Mil Frutas, que apoiou o evento. Lanchinhos saudáveis com pastinhas veganas e frutas trazidas pelos participantes também fizeram parte do evento na área externa do Museu. Essas pastinhas da foto estavam deliciosas!

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Para conhecer mais sobre o museu e sobre a intervenção, clique aqui.
Para ler sobre a sorveteira, clique aqui.
Imagens: blog do museu e instagram Sabor Diário.

____ novembro 29, 2014 ____

A Feira Planetária

Recentemente fui a um evento de food truck na Gávea, chamado de Feira Planetária. Esse termo food truck se refere à venda de alimentos sobre quatro rodas, com as cozinhas adaptadas para o espaço dos automóveis, como kombis e trailers. É mais comum nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil esse tipo de comércio tem ganhado a atenção da grande mídia. Não que seja novidade, a gente tá acostumado a ver esse tipo de venda. Aqui pela Zona Norte e Centro do Rio de Janeiro eu vejo hambúrguer, cachorro quente, pipoca e tapioca sendo vendidos dessa forma.

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Havia um diferencial. O estilo dos “estabelecimentos”. Para cada veículo você tinha todo um conceito pensado para representar o estilo da comida que ali era vendida e dos próprios vendedores. Por exemplo, o de comida vinha todo enfeitado com desenhos japoneses (animes). Ali estavam as pessoas que vendiam, mas também cozinhavam e inventavam os sabores das suas comidas, trazendo bastante diversidade.

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Eu li sobre o casal na Revista O Globo (09/11/2014) e pude encontrar por lá os namorados Marianna e Diogo que criaram a sua barraquinha de tapioca e, com a ajuda da cozinheira baiana Maura Trindade e da chef pernambucana Cláudia Vieira, elaboraram cerca de 30 sabores. A matéria publicada na revista comenta a variedade de lugares onde eles compram seus ingredientes e nos revela que, por exemplo, a manteiga utilizada é feita pelo pai de Marianna. É esse o clima do food truck, bastante toque pessoal e um ambiente de familiaridade. O evento foi realizado bem nesses termos.

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Eu fui lá buscando por opções vegetarianas e notei o que não é novidade pra ninguém: mesmo hoje em dia com o vegetarianismo tendo um maior espaço e ganhando cada vez mais adeptos, ainda é muito complicado sair com os amigos para comer (porque né, é muito bom sair com a intenção de comer) e encontrar nossas opções. Como os preços deixaram claro que o evento não era popular, a gastronomia também se mostrava dentro da considerada refinada, com carne de cordeiro e de pato, vinhos e drinks caros (bons drinks, rs). Fiquei pensando – porque realmente não sei – se temos aqui pelo Brasil food truck vegetariano. Será?

Bom, fui em busca das opções. Bebida não é problema pra mim, eu adoro cerveja e caipirinha e pude apreciar das duas coisas. A caipifruta de morango estava maravilhosa e foi bacana ver o cuidado no preparo e o amor pelo trabalho. Sobre a comida, encontrei um risoto de palmito ao pesto realmente gostoso. E ainda comi umas trufas com ganache pra me despedir do evento. Em termos de sabores, eu não posso reclamar. Estava tudo muito bom!

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O evento tinha espaço gramado para galera sentar, umas mesas e banquinhos em estilo rústico, uma banda simpática animando. Achei bacana, mas também tenho minhas reclamações: as coisas eram caras (!!!) e tinha bem marcado um estilo alternativo (que nem sempre é original e as vezes me dá preguiça, rs), notado também no estilo das próprias pessoas que foram ao evento. A chamada pro evento me pareceu mais popular, mas chegando lá, shame on me, o público alvo estava definido e eu não me sinto muito à vontade nessas situações.

Essas fotos ilustrando essa publicação foram tirados pelo meu amigo Murilo Jesus e vocês podem ver mais um monte de fotos lindas que ele tira no instagram dele. Aí é só entrar em contato pra botar ele pra trabalhar pra vocês (juro que ele é legal). O Sabor Diário também tem instagram e lá tem as minhas fotos da Feira Planetária.

____ agosto 05, 2014 ____

Alimentário

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Alimentário – Arte e Patrimônio Alimentar Brasileiro” é uma exposição pensada por Felipe Ribenboim que mostra como a alimentação contribuiu para a construção de uma noção de cultura brasileira. Logo no início, ela já se anuncia sem pretensões didáticas, mas com uma intenção de instigar a nossa reflexão. Reunindo uma diversidade de obras – fotografias de pratos de chefs famosos, relatos, vídeos, pinturas – a exposição é rica de informações e bastante interessante.

Pra quem não está acostumado a ver a alimentação como fonte para estudo de História ou mesmo para quem simplesmente não reflete a enorme carga cultural que existe em um hábito que praticamos displicentemente todos os dias, recomendo conferir o que o Museu de Arte Moderna está oferecendo, até o dia 10 agosto (7 dilmas a meia entrada!).

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A cana de açúcar, o café, a pouco estudada culinária do Norte (eu penso que a gente julga que o sudeste – sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo são o Brasil e esquece/ignora as diversidades), as obras literárias sobre o tema, os pratos artísticos de chefs de cozinha, a influência da nossa História no nome dos produtos no mercado e a junção de culturas – dos colonos, dos africanos, dos índios, dos imigrantes italianos e franceses e japoneses… Tudo isso aparece retratado de alguma forma em “Alimentário”. É necessário olhar tudo com calma e absorver o que uma pintura de Portinari ou um quadro de Lasar Segall tem a nos dizer. Lasar Segall, por exemplo, passou a explorar cores muito mais vivas em comparação às que usava até então, ao observar e pintar as vegetações brasileiras.

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A cozinha é o local de reunião da família e por isso, pessoal. Mas é também onde o mundo inteiro se encontra, nos alimentos que consumimos. Nossos hábitos, quando paramos para refletí-los, tem muito a nos ensinar.