Filmes

____ agosto 09, 2016 ____

Jiro Dreams of Sushi

Às vezes, quando eu durmo, sonho com sushis.” A frase mostrada nos primeiros minutos, dita por Jiro Ono, explica o nome do documentário e ganha um significado muito maior quando, aos poucos, vamos sendo apresentados a toda a complexidade de preparo gastronômico e de histórias de vidas que envolvem os sushis de Jiro. A beleza das imagens que mostram a preparação da comida despertam o apetite do espectador e confirmam o fato de que comer envolve todos os nossos sentidos. Assistindo Jiro Dreams of Sushi comemos com os olhos e terminamos o documentário com fome. Uma fome de perseguir sonhos e de sermos melhores e – por que não? – uma fome de viajar e conhecer o Japão. O documentário já se tornou o meu favorito (sem medo de errar nessa tarefa difícil que é determinar preferências) e agora vivo insistindo que meus amigos vejam.

jiro-dreams-of-sushi

Três coisas para saber inicialmente a respeito do restaurante de Jiro é que lá serve-se apenas um prato (sushi), o espaço possui apenas 10 lugares e a conta é cara. Localizado numa estação de metrô de Tóquio e sem banheiro, foi o primeiro restaurante do tipo a receber três estrelas do Guia Michelin. A reserva deve ser feita com meses de antecedência e a excelência é certeza do atendimento. Jiro estuda seus clientes e os atende de forma específica: se são homens ou mulheres, destros ou canhotos. O documentário se tornou meu favorito por reforçar toda a minha visão sobre alimentação: temos um restaurante pequeno que serva apenas um prato e ao mesmo tempo temos a amplitude do que ele carrega. O que parece micro, torna-se macro. A história de Jiro é também a história do Japão e temos acesso a uma cultura e uma sociedade através dos sonhos de um indivíduo. Uma visão de mundo que pode ser bastante diferente da nossa (ocidental) e ainda assim dialogar com quem somos e quem queremos ser.

O documentário, dirigido por David Gelb, nos mostra concepções interessantes, como a visão japonesa de disciplina, as conquistas que vem do trabalho duro, a hierarquia de pai pra filho (o filho mais velho que deve ser o sucessor do pai na tarefa e que carrega este destino de forma muito respeitosa) e a própria hierarquia dentro do restaurante, onde os aprendizes passam muito tempo torcendo toalhas quentes (oshibori) antes de fazerem sushis. Tudo isso está ali nos dizendo que é preciso buscar a perfeição em cada ato que envolve o preparo do alimento e que deve-se ter a noção de que a verdadeira excelência exige tempo e dedicação de anos. Jiro tinha 85 anos quando o documentário foi filmado (em 2011), nenhuma vontade de se aposentar e a certeza que mesmo sendo o melhor, ainda podia superar a si mesmo, diariamente.

jiro-dreams-of-sushi-netflix1

Jiro conta com uma equipe na qual confia e que executa as diferentes etapas do preparo de um sushi, chegando a dizer que, hoje, ele fica com a parte mais fácil e os créditos de um trabalho feito a muitas mãos. Antes da equipe de seu restaurante estão os fornecedores dos ingredientes – o arroz, o camarão, o polvo, o atum – cada um especialista em sua área. Ninguém alcança o sucesso sozinho e nesse processo de trabalho em equipe a base é a confiança. Eles confiam em Jiro e Jiro confia neles.

Li algumas resenhas que acabavam falando que o documentário não é sobre culinária. Eu discordo. É um documentário sobre culinária e talvez seja o melhor, porque torna evidente como a alimentação é história. Como um sushi é também a história de um homem, de uma família e de um país. Agora, quem anda sonhando com sushis sou eu.

____ maio 19, 2016 ____

Toast: A História de uma Criança com Fome

O filme Toast: A História uma Criança com Fome (Toast, 2010), é baseado na biografia do chef inglês Nigel Slater e se passa durante os anos 1960, focando em sua infância e adolescência. O filme mostra como a mãe de Nigel apenas consumia produtos enlatados, reflexo de sua inabilidade na cozinha e da dificuldade de seus pais em lidar com aquilo que é natural, o oposto ao artificial. Isso é mostrado na cena em que o pai comenta o quão nojento/sujo ele acha uma criança nua brincando na praia. Como o próprio Nigel ao narrar o filme diz, tudo o que nos é proibido desperta o nosso interesse, assim, a criança se delicia com fotos de alimentos frescos nos livros, brinca de estar vendendo comida em um armazém e pede à mãe para ajudá-lo a cozinhar, tendo na relação proibitiva com a comida um aspecto marcante de sua vida. A figura que o retira desse universo enlatado é o jardineiro Josh, que ao contrário de seus pais, acredita que a maioria das coisas sujas não faz mal. Claro, Josh lida com a terra, com compostagens e alimentos frescos.

toast-3

A Sra. Slater só sabe fazer torradas e essa comida simples é adorada por Nigel que diz ser “impossível não amar quem lhe faz torradas”. Pra mim, isso mostra o apego de Nigel à sua mãe e a associação do afeto à comida, que dá um status de importância a algo simples do dia a dia. Enquanto tem uma relação carinhosa com a mãe, Nigel pensa que seu pai não gosta dele, pois o Sr. Slater é grosseiro e parece sentir um desprezo pelo menino. Ao perder a mãe, Nigel então se vê tendo que aprender a conviver com o pai pouco afetuoso e logo mais com a presença da Sra. Potter, uma faxineira que logo se mostrará uma excelente cozinheira e disputará através da gastronomia a atenção do Sr. Slater com Nigel.

O filme conta uma história real (ou baseada em fatos reais) de uma forma fantasiosa que aparece em cenas de comédia, coloridos e pratos exuberantes. O consumo dos enlatados e dos eletrodomésticos aparece inserido na cultura dos anos 1950/60 de uma forma cômica — só pra gente se situar, podemos lembrar das obras de Andy Warhol retratando a publicidade no período. Toast tem na gastronomia o fio condutor e a metáfora de uma história sobre uma pessoa que busca o afeto e a vida. O jardineiro Josh, da infância de Nigel, diz que “a decomposição faz com que tudo de bom venha à tona”. É sobre isso que fala Toast.

____ dezembro 03, 2015 ____

Chef

Quando o filme Chef (Chef, 2014) estava em cartaz nos cinemas, eu imaginei que fosse um filme com uma proposta mais alternativa. Até acho que estava certa, porque era uma direção de Jon Favreau de menor orçamento, tendo em vista que ele dirigiu o sucesso dos filmes do Homem de Ferro com o Robert Downey Jr. Mas agora que finalmente assisti ao filme, diria que ele é bem sessão da tarde. Não tem nada de diferente ou irreverente, é uma história bem simples e previsível, mas que distrai e diverte.

chef-poster

Carl Casper trabalha num restaurante reconhecido, mas com uma visita marcada por um blogueiro gastronômico bastante influente, decide inovar no cardápio. Impedido pelo dono do restaurante de colocar em prática seu lado artístico e sua criatividade na cozinha, o chef acaba detonado pelo crítico gastronômico. O que acontece a partir disso é o declínio de sua imagem ao ser duramente criticado e ainda se tornar um viral na internet. O chef desempregado decide dar ouvidos à sua ex-mulher e cair na estrada, com um foodtruck de comida cubana. Junto à sua história profissional, existe um drama familiar, com o mal resolvido fim de seu casamento e uma relação distante com o filho.

O filme tem três aspectos interessantes aqui para o blog: a relação do blogueiro que escreve sobre gastronomia com os chefs, os pratos típicos mostrados no filme quando o personagem embarca na culinária de influência latino-americana nos EUA e a visão hierarquizada de um chef que trabalha em um restaurante e considera desvalorização vender comida em um trailer.  Não gostei do desfecho com o blogueiro e achei a relação com a ex-mulher pouco explorada, mas a parte profissional do personagem principal, sobretudo quando está na estrada, é bastante interessante de assistir. A gente termina o filme com vontade de comer e cozinhar.