Filmes

____ abril 03, 2015 ____

Bagdad Café

Bagdad Café (Out of Resenheim) é um filme alemão de 1987, dirigido por Percy Adlon. A história começa com Jasmin e seu marido na estrada, viajando pelos EUA, quando os dois tem uma briga. Jasmin (Marianne Sägebrecht) vai embora e começa a andar sozinha até chegar, muito cansada e suada, ao posto-motel Bagdad Café. A recepcionista é também a proprietária do local, Brenda (CCH Pounder). Ela acabou de discutir com o marido e expulsá-lo. Temos duas mulheres muito diferentes entre si em termos de cultura, comportamento e localidade (Jasmin é alemã), mas em semelhante situação de tristeza e falta de perspectiva para o futuro.

O marido de Brenda surge com uma cafeteira que encontrou/roubou de algum lugar,  o que a deixa irritada e faz com que ela queira se livrar do objeto, mesmo estando com a cafeteira quebrada e se irritando com os clientes que chegam pedindo café.  O artefato não tem maiores participações na história, mas reflete o jeito de Brenda lidar com o lugar do qual toma conta, rejeitando o que não é fruto de seu trabalho, sem saber aceitar ajuda.

Brenda trata Jasmin muito mal desde o início, sendo grosseira e estando a todo tempo estressada com afazeres da administração,  se vendo como alguém que precisa cuidar de tudo sozinha. Jasmin, por outro lado, parece muito estranha ao local, esperando que carreguem suas malas até o quarto. A relação das duas parece impossível, mas é disso que o filme trata: a construção de uma amizade.

Com certeza temos no centro da história duas personagens muito interessantes, o que torna o filme ótimo para assistir. Outro ponto positivo foi eu ter me identificado com Jasmin. É claro que as identificações sempre tem mais a ver com nuances do que com o esteriótipo em si. Jasmin no início do filme é vista sendo inferiozada pelo marido e mesmo depois, no Bagdad Café, ela é colocada num lugar de desvalorização. Eu observava Jasmin ao longo do filme e o desenvolvimento da personagem foi mexendo comigo.  Até pelo modo dela de modificar as coisas. Ao pegar em aspiradores e vassouras e encarar a limpeza do posto-motel, ela surpreende a todos. Além disso, estabelece relações e traz um pouco de magia, o que nunca deixa de ser uma forma romântica de transformar a realidade. Outro ponto é a relação de Jasmin com seu corpo e sua sexualidade, que vai sendo sutilmente mostrada no filme através de sua relação com Rudi Cox (Jack Palance).

O bacana é vermos uma mulher durona se permitindo ser cuidada. E outra, fragilizada, tomando as rédeas da própria vida. Bagdad Café é um filme sobre amizade e felicidade. E sobre ambas não estarem relacionadas a nada de difícil acesso ou fora de nosso universo.

____ janeiro 27, 2015 ____

Estômago

Se você é do tipo que curte filmes nacionais, ou já assistiu ou já ouviu falar. Se só ouviu falar, assista. Se você é daquelas pessoas que acha o cinema nacional ruim, assista – é uma ótima chance de repensar. Se você é como eu, adora refletir assuntos ligados à alimentação e super curte um cineminha, então assista também! Estômago é um filme muito bacana (e quando eu uso a palavra “bacana” é porque acho que uma coisa vale a pena!).

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Do que se trata? A história é de Raimundo Nonato (João Miguel), um migrante nordestino que, chegando à cidade grande sem dinheiro, para num boteco e pede umas coxinhas. Come, mas sem ter como pagar, o dono do bar o coloca para lavar os pratos e o chão da cozinha. Em troca de um abrigo no quartinho dos fundos, o rapaz começa a trabalhar (sendo explorado) no boteco, fazendo salgados e atendendo às pessoas. Com ele na cozinha, a qualidade das coxinhas vendidas sobe consideravelmente e os clientes reconhecem que “boas mãos” devem estar manipulando aquela massa. Nesse trabalho, Raimundo conhece a prostituta Íria (Fabíula Nascimento), que adora comer e com a qual se envolve.

Ao mesmo tempo em que o filme conta essa história, as cenas intercalam com o tempo presente, onde Nonato está na cadeia e não sabemos o que o fez acabar lá. O desenvolvimento de sua história na cadeia também é muito interessante, todo traçado pela sua relação com a comida.

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No que me fez pensar? Primeiro, no que eu sempre digo: a alimentação é tudo e está em tudo. Justamente por isso, pouco se dá conta do papel fundamental da mesma, não apenas na nossa saúde ou sobrevivência, mas em nossas relações sociais, o que é o caso do filme. A partir da alimentação se estabelecem relações de poder. Se o personagem principal do filme consegue, de alguma forma, se manter na cidade grande é através da comida que faz, e esse tipo de situação é absurdamente comum. As pessoas com as quais se envolve chegam à ele através da comida e toda a relação tem como enfoque a comida. Na cadeia, com a sua personalidade pouco expansiva, se Nonato se firma, ganha ou perde poder, é sempre através da refeição, do prato, do alimento e do que faz com ele.

Quando o “chefão” da cadeia vai encontrar um outro bandido considerado importante no meio deles, qual a ocasião? Um almoço. Como impressionar e deixar o cara satisfeito? Com um bom almoço. É a importância que a comida tem. Montar o almoço para impressionar basta que se utilize dos códigos e pratos utilizados pela elite, porque seria considerado o melhor? Isso funciona num meio onde aquilo não é só desconhecido como pode soar estranho? Não. É preciso dialogar com a cultura e a realidade de quem vai comer aquela refeição e, ainda assim, fazê-la tão bem e tão farta que deixe a pessoa satisfeita. Satisfeita para além da saciedade. Satisfeita, sentindo-se bem recebida, acolhida, importante. O que vem desse estado de espírito é importante para se firmar relações, acordos, amizades e por aí vai. E, se há poder naquele que oferece o banquete, também faz-se necessário pensar no poder daquele que manipula a comida.

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Para mim, a questão principal é mesmo a alimentação e o poder. Mas o filme traz o alimento de tantas formas e em tantas situações que eu não posso resumir tudo apenas à essa questão. É preciso ter o olhar sensível e absorver tudinho para se pensar a alimentação representada no filme. Cenas como a do queijo gorgonzola na prisão, do carpaccio, da descrição sensorial do vinho usando-se do termo “pêlo de cachorro molhado” e o prato com formigas, tudo isso nos traz o pensamento da cultura, do significado, do hábito, da classe social. A personagem Íria também me fez ligar muito a relação da comida com o sexo, que é bem forte, basta percebemos que termos utilizados para descrever a relação sexual também são usados na descrição de pratos, afinal, ambos tratam de sabor, cheiros, texturas, sensações. Não apenas a personagem Íria, como os presos na cadeia também fazem essa ligação da comida com o sexo. “Uma comida tão boa que você quase goza.

Por fim, porque eu não posso deixar de falar sobre isso, o filme, com tantos personagens masculinos, traz do ambiente da cozinha ao da cadeia, o machismo. E meu olhar também é sempre atento à isso e eu até pretendo escrever sobre isso melhor aqui no blog. Por enquanto, fiquem com a reflexão do machismo estabelecido em diferentes espaços – boteco, cozinha, cadeia. E, pegando o gancho do parágrafo anterior, a associação não agora do sexo, mas da mulher à comida. A mulher como um pedaço de carne.

O filme foi o grande vencedor do Festival do Rio de 2007, ganhando o prêmio do público de melhor filme, além dos prêmios de melhor diretor (Marcos Jorge) e ator. No festival de Punta del Este também levou o de melhor filme e melhor ator. Então, se você é daqueles que dá valor às premiações, assista.

Já falei aqui sobre um outro filme que também recomendo muito, O Tempero da Vida.
____ novembro 28, 2014 ____

Food Matters

Trabalho em um museu-casa, onde manipulo cartas trocadas pela família que ali morou no final do século XIX e início do século XX, ou seja, final do Império e início da República aqui no Brasil. Como eu pesquiso História da Alimentação, minha proposta inicialmente é transcrever todas as menções que eu encontrar à alimentação, para ver que tipo de estudo eu posso produzir em cima do material. O que eu venho notando é que a alimentação é bastante citada e, na maioria das vezes, vem relacionada ao fato de estar sendo utilizada para curar alguma doença de um membro da família, como gripe, dores no corpo, cólicas e até assaduras em bumbum de bebê.

Antigamente a alimentação estava bastante associada à cura. É no século XIX que surge o termo “alopatia” para definir a medicina tradicional, termo criado por um homeopata, defensor de uma medicina alternativa. A indústria farmacêutica surgiu no final do século XIX e seu avanço se deu ao longo do século XX. O que se observa na História, é uma separação da medicina da nutrição e cada vez um maior afastamento entre elas. Nas cartas que eu leio, ainda no início do século XX, é possível notar a nutrição sendo utilizada no lugar do medicamento farmacêutico muito devido à tradição familiar e aos conhecimentos passados de mãe para filha. Não podemos esquecer do papel dos indígenas e africanos. Muitas das chamadas “criadas” eram ex-escravas e traziam seus conhecimentos de cura para os filhos das então “patroas”.

Hoje em dia, vamos ao médico e ele nos receita um medicamento para acabar com a dor de cabeça, por exemplo. Não se fala sobre a prevenção dela através da alimentação e nunca o médico pergunta ao paciente sobre o que ele come. É disso que fala o documentário Food Matters. O lucro, as instituições e corporações que existem por trás desse sistema medicinal e farmacêutico controlam (por financiarem) as próprias pesquisas de faculdade. Os meios de comunicação direcionados à massa também indicarão medicamentos para você comprar, mas jamais dirão que você não precisa comprá-los uma vez que se alimente bem. Como bem ressalta o documentário, para que a indústria farmacêutica lucre é preciso que as pessoas estejam doentes. Não há um interesse na cura que as livre de tomar remédios, pois isso não seria lucrativo.

O tipo de informação contida em Food Matters é aquela que você precisa buscar, ela não chega naturalmente até você. Argumento já muito utilizado é o fato de assistirmos a jornais que retratam a todo tempo desgraça e violência e, então nos comerciais, nos perguntam se estamos cansados e infelizes e nos oferecem as pílulas que nos curarão disso. Da mesma forma que assistimos às novelas e seriados e vemos corpos padronizados e vidas com finais felizes e logo partimos aos comerciais sobre o novo aparelho que vai modelar o seu corpo ou o hotel onde você precisa descansar nas férias. Recomendo Food Matters por esse conteúdo questionador. Não é necessário concordar com tudo (eu não concordei) o que é dito no documentário, mas faz-se importante instigar o senso crítico.