Lugares

____ julho 07, 2018 ____

Refettorio Gastromotiva

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A experiência de servir o jantar no Refettorio Gastromotiva me fez pensar na comida enquanto teatro. Roy Strong em seu livro “Banquete” se dispõe a estudar o ritual da alimentação nas classes mais abastadas da sociedade. É neste contexto que ele define o ato de comer como um ritual teatral, envolvido em sequências de pratos e regras de etiquetas.

No filme nacional “Estômago” , quando o personagem Raimundo Nonato se dispõe a servir um banquete na cadeia utilizando elementos e ingredientes associados às refeições de quem possui maior poder aquisitivo, Nonato o faz com a clara intenção de estabelecer relações de poder através da comida. O impasse que surge é até que ponto esses elementos e códigos são capazes de gerar naquele grupo em questão uma identificação. A identificação é essencial pra estabelecer uma relação, seja ela de poder ou não.

A Gastromotiva tem como ponto de partida a intenção de promover transformação social a partir da comida. A iniciativa, trazida para o Brasil pelos chefs Massimo Bottura, David Hertz e pela jornalista Ale Forbes, inclui projetos como cursos de capacitação em cozinha, curso de empreendedores e o Refettorio Gastromotiva. Foi deste último que eu participei no dia 21 de junho, uma quinta-feira. A minha experiência no Refettorio consistiu em servir o jantar gratuito para pessoas em condição de vulnerabilidade social.

A comida é pensada por um(a) chef, feita na cozinha do local e servida para pouco mais de 70 pessoas acomodadas no salão principal. Somos instruídos sobre a limpeza necessária para servimos a comida e sobre como devemos nos movimentar pelo salão (“No salão nunca andamos para trás”). Com o pensamento entre o teatro de Roy Strong e o filme Estômago, entre o ritual e a identificação, observei que a comida pensada por uma chef somada à apresentação dos pratos e ao serviço dividido em entrada, prato principal e sobremesa tem significado simbólico e psicológico. Essa estruturação em etapas diz respeito à camadas, uma seguida pela outra e então mais outra, indo da abertura ao desfecho, performando um teatro, movimentado pela desajeitada coreografia dos voluntários no salão, reflexo da nossa inexperiência em servir.

____ setembro 24, 2017 ____

Cozinha itinerante e cozinha urbana

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Bibimbap, banchan, japchae, dakgangjeong, maejakwa. Estes são nomes de pratos coreanos que experimentei nos últimos meses. Em junho e em agosto eu experimentei o cardápio coreano resultado de uma parceria entre a Kim Korean Food e a Wursteria. A Kim Korean Food é uma cozinha itinerante. Nesta ocasião ao final de junho estiveram na Tijuca e logo depois no Humaitá. Em agosto, retornaram à Tijuca. Já a Wursteria (que não é itinerante e localiza-se na Rua Uruguai), define-se como “cozinha urbana”. Seu espaço é pequeno, com uma decoração meio industrial, em tons preto e cinza. Nas duas vezes em que fui, sentei-me na parte interna, pois estava apenas com a minha irmã, mas se for com muitos amigos será mais confortável ficar na externa, na calçada da rua, aonde as mesas comportam mais pessoas.

Falando sobre o cardápio montado pela Kim Korean Food em parceria com a Wursteria, geralmente temos duas opções de entradas, dois pratos principais e uma sobremesa.

Ocasião 1:

Comecei pelo banchan (pepino temperado, berinjela, acelga picante fermentada e arroz). É um prato saboroso que eu havia experimentado em São Paulo como acompanhamento do prato principal e aqui, como entrada.

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Experimentei os dois pratos principais. O bibimbap consistia em um arroz com cenoura, espinafre, brotos, cogumelos, pimentão vermelho, ovo e carne. O prato vem bem bonito (como na foto abaixo) e organizado, mas a ideia é misturar tudo antes de comer. O japchae também tinha cenoura, espinafre, pimentão vermelho, cogumelo e carne. Era um macarrão de batata doce. Este segundo achei um pouco enjoativo e não muito saboroso, mas o bibimbap é um prato do qual gosto bastante. Gostos pessoais, pois minha irmã preferiu o macarrão.

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Como sobremesa, comi o maejakgwa, biscoitos de gengibre com calda de gengibre e canela. A comida salgada que transita entre o picante e o agridoce encontra um desfecho especial com esta sobremesa não muito doce.

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Ocasião 2:

Pedi a porção de mandu frito, pastel tipo gyoza recheado de porco e kimchi. Gostei tanto, que pedi novamente e venho sonhando com estes pastéis.

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Também comi o dakgangjeong, frango frito banhado no molho doce cítrico e amendoim.

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A sobremesa oferecida foi a mesma, o que achei ótimo, pois eu e minha irmã estávamos querendo comê-la novamente. Dessa vez os biscoitos de gengibre não levavam canela, mas são gostosos de qualquer forma. Outro prato que repetimos.

Cada prato sai por cerca de 30 reais.

A Wursteria fica na Rua Uruguai, 397 – Tijuca, Rio de Janeiro. IMPORTANTE: Esses cardápios são especiais para os eventos de parceria entre Kim Korean Food e Wursteria. O cardápio do estabelecimento não oferece os pratos comentados neste texto.

Os eventos com a KIM Korean Food podem ser acompanhados em sua página no facebook.

Aqui eu falei sobre um restaurante de comida coreano no Bom Retiro, em São Paulo.

____ junho 28, 2017 ____

Takoyaki outra vez

Eu acho viajar uma delícia e até ia dizer que não conheço uma pessoa que não goste, mas tenho exemplos dentro de casa de pessoas que gostam mesmo é de ficar no aconchego e na familiaridade do próprio lar e da rotina. E tudo bem. Eu nunca viajei para fora do país (por limitações financeiras) e a verdade é que conheço pouco do Brasil, mas o Brasil é um país muito grande e conhecê-lo bem é privilégio de poucos. Já estive em ótimas cachoeiras pelo sul de Minas, guardo um amorzinho por São Paulo e quando viajei pela primeira vez sozinha, fui para Curitiba, Paraná. Viajar sozinha foi pra mim uma experiência muito boa. Ficando hospedada em hostel, conheci pessoas, saímos juntos, bebemos, comemos. Mas também aproveitei as horas sozinha no Jardim Botânico, não queria ir embora daquele lugar maravilhoso e sabia que o fato de estar ali só eu-comigo-mesma tornava aquele momento mais especial.

Recentemente, fui sozinha pra São Paulo. Novamente hospedada em hostel, percebi que não queria muito papo com ninguém e a bagunça das outras meninas no quarto dividido me incomodou (o banheiro compartilhado ficava nojento ao longo do dia, mesmo com uma funcionária do local deixando ele limpinho todas as manhãs). Não sei se a nossa abertura pra essas coisas é menor quanto mais velhos ficamos ou se eu fiquei mal acostumada por ter me hospedado em um quarto só pra mim na última viagem (pra São Lourenço), dormindo numa cama de casal. Fato é que eu não era a mesma Gabriela de Curitiba. Além da indisposição pra socializar com estranhos, eu percebi que quis viver o familiar. Visitei os lugares de São Paulo que eu já gosto, no bairro da Liberdade: a papelaria Fancy Goods, a pastelaria Yoka e o mercadinho que vende takoyaki. Cá entre nós, até o hostel que eu fiquei, eu já conhecia, pois me hospedei lá há quase três anos.

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Aqui no Rio eu geralmente aguardo pra comer takoyaki nos eventos da Associação Nikkei. Em São Paulo, ficam os bolinhos de polvo mais gostosos da vida – talvez porque eles fiquem melhores com a fome que eu sinto após bater perna pelo bairro. O mercadinho não tem lugar para sentar e da outra vez eu comi em pé tranquilamente. Dessa vez, o clima chuvoso me fez pedir para viagem e levar pra comer no hostel. Sentei na mesinha com arranjo de flores, com vista para a rua, onde dava pra ver a chuva. A comida quentinha contrastando com o tempo frio e eu ali sentada sozinha, feliz com a minha sacolinha de compras de papelaria. Acabei pensando como viajar sozinha me faz perceber que, no fim das contas, eu gosto da minha própria companhia e que eu cuido bem de mim. Feliz da vida, doninha do próprio nariz.

Rua Galvão Bueno, 270 – Liberdade, São Paulo.

Já falei aqui no blog sobre alguns lugares para comer em São Paulo: o restaurante Seok Joung, no Bom Retiro e o Porque Sim, na Liberdade.