Refletindo

____ março 10, 2017 ____

A fome é logo ali

FullSizeRender

Comer ontem no bandejão do IFCS fez com que eu lembrasse de uma coisa que aconteceu há doze anos.

Quando eu estudava no Instituto de Educação, eu ficava na escola praticamente o dia todo. O refeitório servia café da manhã, almoço e lanche enquanto eu estava lá. O café da manhã era por volta das dez da manhã. Lembro de um dia em que avisaram que o café passaria a ser mais cedo. Não lembro o horário, só lembro que era mais cedo. Eu, do alto do meu privilégio, achei ruim. Nesse horário eu ainda não estava com fome! Realmente não passou pela minha cabeça que nem todo mundo que estudava lá tinha o privilégio de sair de casa já tendo tomado café da manhã. Hoje isso me parece óbvio, mas há doze anos não era. Alguém precisou me explicar que a refeição tinha sido adiantada porque o café da manhã oferecido pela escola era a primeira refeição de muitos alunos e eles precisavam estar alimentados para tirar proveito da aula. Alguém precisou me explicar que alguns desmaiavam de fome. Eu senti vergonha por não ter pensado isso sozinha e principalmente por ter reclamado. Desmaiar de fome nunca foi parte da minha realidade e até então eu achava que só era a realidade de pessoas muito distantes de mim ou de gerações anteriores a mim na minha família, mas não de alguém que estudasse no mesmo lugar que eu. Antes dali, eu estudava em escola particular e pagava todo dia pela comida da cantina. Acho que eu nunca tinha pensado em alunos que dependiam exclusivamente da comida da escola. Aquele dia eu aprendi que a fome não existia num lugar distante ou em outro tempo. A fome era logo ali.

***
Em relação ao bandejão na universidade, o acesso à comida é importante para que pessoas capazes de trazer um olhar diferente para o estudo da sociedade estejam presentes nos espaços acadêmicos dos quais elas vem historicamente sendo excluídas. O almoço e o jantar oferecidos pela universidade democratizam os espaços tradicionais de construção de saber e diversificam esses saberes. Quando o dinheiro necessário para comida impossibilita a permanência de alunos nesses espaços, a gente perde. Mas ontem, não. Ontem tinha arroz e feijão. Ontem a gente ganhou.

____ março 28, 2016 ____

O cuidado com as palavras

Dia desses eu estava numa aula de nutrição quando um vídeo sobre um peixe pescado e devolvido à água gerou uma discussão despertada pelos vegetarianos presentes. Lembro quando era criança, de acordar cedinho no final de semana e assistir a um programa de pesca na TV aberta. O rapaz pescava, falava algo sobre o animal e o devolvia à água. Aquilo me distraía e, cá entre nós, hoje em dia eu acho engraçado como quando criança eu gostava de assistir a programas que não eram destinados a minha faixa etária, como esse e o “Siga Bem Caminhoneiro”, que se não me engano passava em seguida. Bom, eu via esses programas porque acordava cedo e ficava assistindo o que passava até que começassem os desenhos, mas eu também gostava daquilo. Mais tarde, eu entenderia que devolver o peixe vivo ao seu habitat não era exatamente um exercício de bondade, porque o homem foi lá, machucou o bicho às custas de entretenimento e o devolveu, machucado. E foi isso que gerou a discussão.

Queria chamar atenção para um argumento que surgiu durante a discussão e que geralmente surge quando alguém diz que já tentou, mas não consegue cortar a carne da alimentação. “Quando for comer carne, imagine o bicho morrendo.” Não, não imaginem. Qualquer decisão que tomem a respeito da alimentação deve ter mais base do que terror psicológico e incentivo à repulsa ao alimento, porque isso é desencadeador de transtorno alimentar. Estamos falando de restrição na alimentação incentivada por asco ao alimento e isso é sério.

Então, leia, entre em contato com a filosofia, conheça diferentes correntes, se envolva com o que causar mais identificação, se dê o direito de voltar atrás, de mudar o caminho, de recomeçar, de tentar novamente, não tome decisões por se sentir cobrado pelos outros. Tenha consciência ambiental, política, permita-se concordar e discordar. Se relacionar com a comida através do remorso e da culpa é caminhar no sentido inverso desse processo de conscientização. Não é a partir desse afastamento que se alcança o amor aos animais ou à natureza, porque você é parte dela e é respeitando e amando a si mesmo que você vai ser capaz de transbordar esse amor.

O vegetarianismo é uma alimentação rica e variada e você pode chegar a ela a partir de diferentes correntes de pensamentos. A gente sabe – porque pesquisa, lê e se informa – que dá pra não comer carne e ser saudável e que argumentos contrários são fruto de falta de informação e preconceito. Mas, existe uma forma de propagandear o vegetarianismo utilizada por alguns e com a qual eu não concordo, que é através do choque, de causar impacto e fazer as pessoas se sentirem mal, o que é problemático, porque estamos falando de relação com a comida e existem coisas como transtorno alimentar e ortorexia. Além disso, toda a mídia e indústria de comida, beleza, farmácia que ganha dinheiro já o faz em cima da baixa auto estima, da péssima relação que desenvolvemos com nossos corpos e do sentimentos de insatisfação e culpa. Refletir sobre os nossos argumentos é ter cuidado com o outro e também olhar pra dentro. E olhar pra dentro é cuidar de nós mesmos. Vamos?

____ novembro 11, 2015 ____

Dieta: Restrição, compulsão e culpa

Você resolve fazer uma dieta e logo promete a si mesma: “não vou mais comer chocolate” ou “não vou tomar refrigerante” ou ainda “não vou comer fritura“. Não importa a restrição, a questão é que existe algum alimento ou categoria de alimento que você coloca na lista dos proibidos. Aí temos duas coisas: a primeira é que você se proíbe de comer algo que gosta e a segunda é que você está querendo mudar, mas está se pautando no “não”. A mudança pra ser boa pra gente tem que ser com base em se permitir e não em se limitar.

Proibição gera tentação. Aquela vontade de comer o que você instituiu que não pode. Essa vontade toda vira uma coisinha chamada compulsão. Às vezes você vai lá e come um pedacinho. Pronto, já saiu da dieta. Se eu já saí da dieta, então vou comer dois. Se comi dois, como três. Se como três, como um montão e deixo pra voltar com essa coisa de dieta na segunda-feira. Depois comendo um, dois ou três, sinto culpa. “Jaquei”, é assim que andam dizendo, se referindo a “enfiar o pé na jaca”. (Lembrando que nesse ponto muita gente vomita ou toma laxante e isso é transtorno alimentar!)

A culpa te leva logo à punição. “Amanhã só vou comer uma alface” ou “vou malhar muito mais pra compensar isso“. E você vai se relacionando com a alimentação e com a atividade física dessa forma negativa, punitiva.

A gente quer um profissional que nos diga o que comer, o quanto comer, que horas comer. Lidar com a total liberdade para definir a alimentação dá frio na barriga, a gente não se acha capaz. Olha isso: a gente não se acha capaz de definir a própria alimentação! Sabe por que? Porque nós não conhecemos a nós mesmos. Olhar pra essa questão, pensar no que seu corpo pede, que horas ele pede, no que te deixa bem e disposta, arriscar, experimentar, errar e acertar é que pode gerar uma relação com a comida que se baseie em bem estar e não em números na balança ou elogios de outros ao seu corpo por ele estar se aproximando de algum padrão determinado por alguém que, opa, não é você. Não vive dentro do seu corpinho. Não sabe das suas necessidades.

Quando estiver mudando sua alimentação, pense como está fazendo isso. Dietas que se baseiam na restrição são o caminho para a compulsão e a culpa. Pense no por que de um “projeto verão”. Ficar dentro do padrão pra usar biquíni? Qualquer um pode usar biquíni e seria mais bacana pra todo mundo se o “projeto verão” fosse planejamentos de ir a praia por você e não pelos outros, beber água de coco gelada, estar com pessoas queridas. E por que só no verão? Por que não na vida toda? Pense nos termos que usa pra se referir à comida. “Gordices”, “jacar”? Estou falando nessas palavras que estão sendo usadas ultimamente porque refletem valores da nossa sociedade que podem ser revistos e quando você se utiliza desses termos está reafirmando esses valores, mesmo sem perceber. Vamos pensar nisso tudo com carinho? Carinho e respeito por nós mesmos e pelos outros.

ShineYourLight_MW_web_reg_grande

*Inspirações: O Corpo é Meu (até o Buddha Doodles eu conheci por lá) e Fale com a Nutricionista.