____ outubro 02, 2017 ____

Cozinheiros demais

Aqui pelo centro do Rio tem umas barracas montadas nas calçadas que vendem livros a preços muito baratos. São livros velhos, geralmente espalhados de forma bagunçada e expostos a um sol escaldante. Há certo tempo, quando eu estagiava e estudava pelo Centro, queimar a cabeça enquanto revirava esses livros era parte do que eu considerava distração. Numa dessas, comprei “Cozinheiros demais”, livro de Rex Stout, por três reais (se não me engano). Um investimento com meu pouco dinheiro de estágio.

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O livro despertou a minha curiosidade por diversos motivos. Primeiramente, a capa com o cozinheiro morto com uma facada nas costas me pareceu um pouco hilária, um deboche. Depois, o título: Cozinheiros demais. Títulos relacionados à alimentação sempre fazem eu pegar um livro para ler sobre o que se trata e eu adoro quando o assunto comida aparece em histórias de ficção. A história, no caso, não era qualquer história de ficção, era um suspense e envolvia assassinato. Era certo que eu precisava ler este livro.

A estrela do livro é Nero Wolfe, um detetive descrito como obeso e grande apreciador de comida. Enquanto ele é a parte pensante, seu amigo e empregado (eu diria uma espécie de secretário e guarda-costas) Archie Goodwin é a parte ativa, quem coloca a mão na massa, fazendo o que Wolfe ordena. O detetive é convidado de honra para palestrar sobre as contribuições americanas para a haute cuisine em um evento que reúne os quinze maiores chefs do mundo. Chefs europeus, um tanto quanto desdenhosos sobre essas contribuições, uma plateia cheia de egos e excentricidades.

Um dos chefs convidados, chamado Phillip Laszio, é simplesmente odiado pelos demais. Ele roubou os créditos da receita de um chef, a esposa de outro, o posto de trabalho de mais um. Aparentemente, o cara chegou aonde chegou através de trapaças e artimanhas. Quando Laszio aparece morto com uma facada nas costas no evento, qualquer um poderia ser o responsável, visto que todos tinham motivos para matá-lo. Inclusive, o pouco caso dos demais com a morte dele é parte do humor do livro. Um dos personagens chega a dizer que, ainda que não o tenha matado, se pudesse fazer algo para trazê-lo de volta, não o faria. Com todos sendo suspeitos e investigadores que não sabem lidar com os empregados negros do hotel onde ocorre o evento, Wolfe se vê envolvido no caso.

O racismo não me pareceu a questão central do livro, mas o autor certamente esbarra nela quando opta por fazer sua história se passar em West Virginia e faz do abismo entre brancos (os convidados para o evento e hóspedes do hotel) e negros (os empregados do lugar) parte importante para o desenrolar do mistério. Já a descrição das mulheres, sempre fatais, cínicas e/ou manipuladoras não me pareceu uma crítica, mas parte da narrativa, como pude ler em “as mulheres são histéricas. Seus momentos de calmaria não passam de uma pausa para recuperação entre os ataques” (fala de Nero Wolfe) ou “os sujeitos comiam como se fossem uma mulher enchendo uma mala” (narração). É sensato localizar o livro dentro de sua época: de nome original “Too many cooks”, a história foi escrita em 1938.

Nero Wolfe, personagem que até então eu desconhecia, é parte de outras publicações do autor. A forma como a história flui, as ironias e a curiosidade que desperta fazem a leitura valer a pena. Fiquei satisfeita por ter comprado este livro com a foto debochada. Além de ter visto capas mais desinteressantes para o mesmo título, não fui enganada pela imagem. Um ótimo exemplo de quando se acerta ao julgar um livro pela capa.

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