____ março 28, 2016 ____

O cuidado com as palavras

Dia desses eu estava numa aula de nutrição quando um vídeo sobre um peixe pescado e devolvido à água gerou uma discussão despertada pelos vegetarianos presentes. Lembro quando era criança, de acordar cedinho no final de semana e assistir a um programa de pesca na TV aberta. O rapaz pescava, falava algo sobre o animal e o devolvia à água. Aquilo me distraía e, cá entre nós, hoje em dia eu acho engraçado como quando criança eu gostava de assistir a programas que não eram destinados a minha faixa etária, como esse e o “Siga Bem Caminhoneiro”, que se não me engano passava em seguida. Bom, eu via esses programas porque acordava cedo e ficava assistindo o que passava até que começassem os desenhos, mas eu também gostava daquilo. Mais tarde, eu entenderia que devolver o peixe vivo ao seu habitat não era exatamente um exercício de bondade, porque o homem foi lá, machucou o bicho às custas de entretenimento e o devolveu, machucado. E foi isso que gerou a discussão.

Queria chamar atenção para um argumento que surgiu durante a discussão e que geralmente surge quando alguém diz que já tentou, mas não consegue cortar a carne da alimentação. “Quando for comer carne, imagine o bicho morrendo.” Não, não imaginem. Qualquer decisão que tomem a respeito da alimentação deve ter mais base do que terror psicológico e incentivo à repulsa ao alimento, porque isso é desencadeador de transtorno alimentar. Estamos falando de restrição na alimentação incentivada por asco ao alimento e isso é sério.

Então, leia, entre em contato com a filosofia, conheça diferentes correntes, se envolva com o que causar mais identificação, se dê o direito de voltar atrás, de mudar o caminho, de recomeçar, de tentar novamente, não tome decisões por se sentir cobrado pelos outros. Tenha consciência ambiental, política, permita-se concordar e discordar. Se relacionar com a comida através do remorso e da culpa é caminhar no sentido inverso desse processo de conscientização. Não é a partir desse afastamento que se alcança o amor aos animais ou à natureza, porque você é parte dela e é respeitando e amando a si mesmo que você vai ser capaz de transbordar esse amor.

O vegetarianismo é uma alimentação rica e variada e você pode chegar a ela a partir de diferentes correntes de pensamentos. A gente sabe – porque pesquisa, lê e se informa – que dá pra não comer carne e ser saudável e que argumentos contrários são fruto de falta de informação e preconceito. Mas, existe uma forma de propagandear o vegetarianismo utilizada por alguns e com a qual eu não concordo, que é através do choque, de causar impacto e fazer as pessoas se sentirem mal, o que é problemático, porque estamos falando de relação com a comida e existem coisas como transtorno alimentar e ortorexia. Além disso, toda a mídia e indústria de comida, beleza, farmácia que ganha dinheiro já o faz em cima da baixa auto estima, da péssima relação que desenvolvemos com nossos corpos e do sentimentos de insatisfação e culpa. Refletir sobre os nossos argumentos é ter cuidado com o outro e também olhar pra dentro. E olhar pra dentro é cuidar de nós mesmos. Vamos?

__ Comentários via Facebook __