____ março 01, 2016 ____

Ofício das paneleiras de Goiabeiras (ES)

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Imagem: Portal IPHAN (http://portal.iphan.gov.br)

É na panela de barro feita à mão por uma técnica que conserva a essência da forma de produção utilizada pelos nativos americanos antes mesmo da chegada dos europeus e africanos que é servida a tradicional moqueca capixaba. No bairro de Goiabeiras Velha, em Vitória, muitas casas são também oficinas de produção dessas panelas feitas por mulheres que passam seus conhecimentos de mãe para filha. São as paneleiras de Goiabeiras, e algumas delas fazem isso há 45 anos. Através da Lei Rubem Braga, as paneleiras possuem um galpão, onde fica a Associação das Paneleiras de Goiabeiras, local onde as mulheres se reúnem para fazer as panelas de barro de forma totalmente artesanal conservando as técnicas indígenas. A atividade foi registrada como Patrimônio Imaterial no Livro de Registro dos Saberes, em 2002. O vídeo ao final deste post é um documentário de cerca de 18 minutos, exibido no programa DocumentAção, da TV NBR e retrata toda a cultura, tradição, arte e saber envolvido nesse processo. Acho importante assistir e tomar conhecimento sobre a sobrevivência e a vivência dessa técnica que nos leva há até mil anos atrás.

As matérias-primas são todas retiradas da natureza, a maioria de um manguezal próximo à Goiabeiras. O barro utilizado é buscado há centenas de anos no Morro do Mulembá. Antes, as paneleiras buscavam o barro, mas atualmente a retirada do material é feita por homens que vendem o barro para as paneleiras. Elas recebem o material através de um caminhão da prefeitura, facilitando o seu trabalho.

O barro moldado à mão precisa ser polido até adquirir textura de pedra. Nesse processo é utilizada uma pedrinha conhecida como seixo rolado. As panelas são queimadas e a madeira utilizada nesse processo de queima é obtida a partir de descartes de obras da construção civil (antigamente, a lenha vinha do mangue). O documentário informa que essa queima das panelas é uma técnica característica indígena. Os africanos faziam a queima no forno.

Vassourinhas feitas de arbustos do mato são usadas então para surrar a tinta na panela que acabou de sair do fogo. A tinta é retirada da casca de uma árvore conhecida como mangue vermelho, rica em tanino. As cascas são quebradas em pequenos pedaços que são colocados em uma lata com água. Após um dia, a água está avermelhada e a tinta, pronta.  Quando batida contra a panela quente, a panela adquire a coloração preta e tons de bronze, mas não é apenas para colorir que a tinta é utilizada: ela também impermeabiliza.

As conquistas através da Lei Rubem Braga e do reconhecimento como Patrimônio Imaterial ajudaram a produção artesanal a ganhar novo fôlego, mas a comercialização concorre com 14 pequenas indústrias de panelas de barro que produzem em maior quantidade (por não ser uma produção inteiramente artesanal) e se utilizam do termo famoso e procurado pelos turistas no anúncio de venda, se intitulando “panelas de Goiabeiras”. No entanto, essas panelas de barro não poderiam se utilizar do nome, uma vez que são feitas por outras técnicas, industriais. A cerâmica não é a mesma, a panela é moldada em um torno e não somente à mão e é queimada em forno.

Assista:

O ofício das paneleiras de Goiabeiras já foi resposta de uma questão do ENEM de 2014, a qual falava sobre a fabricação artesanal do queijo de minas.

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Imagem: Portal Inep (http://portal.inep.gov.br)

*Imagem 1: Retirada da reportagem A presença feminina expressa no Patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro, publicada em 21 de agosto de 2015 na página do IPHAN.

*Imagem 2: Portal Inep – Provas e Gabaritos

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