____ setembro 07, 2016 ____

Comer Rezar Amar

Capa Comer Rezar e Amar

Comer Rezar Amar é a história de uma mulher branca, estadunidense, com dinheiro para viajar o mundo e cujo gatilho para busca por si mesma está no seu divórcio e no relacionamento amoroso intenso e fracassado que teve em seguida. Eu mesma não tive a oportunidade de viajar sequer dentro do próprio Brasil para superar um relacionamento que me fez em pedacinhos – e eu adoraria comer na Itália ou meditar na Índia enquanto juntava os caquinhos e tentava me fazer inteira novamente. E sim, também temos realidades muito mais duras do que essa, que podem fazer uma depressão desencadeada por decepção amorosa parecer um drama besta (spoiler: não é). Contextualizar isso e reconhecer também os esteriótipos que a autora reproduz sobre as culturas que visita é interessante, mas a gente precisa refletir até onde nossa crítica não está inserida dentro de um preconceito machista, que desdenha de histórias inseridas no dito “universo feminino”, um universo a todo tempo inferiorizado em nossa sociedade. Quando o divórcio de Elizabeth vem junto com todos os questionamentos sobre não querer estar casada, ter filhos e viver nos moldes de uma família tradicional, o seu relato deixa de ser individual e se torna coletivo, uma experiência comum a muitas mulheres. Dito isto, lá vou eu, resenhar o quarto livro para este blog e feliz ao me dar conta de que três deles foram escritos por nós, mulheres.

Comer Rezar Amar é a história de Elizabeth Gilbert, uma escritora norte-americana que após um divórcio e um relacionamento que a consumiu, resolveu passar um ano viajando por três países: Itália, Índia e Indonésia. Como ela mesma diz no livro, todos os países começam com I, que significa “eu” em inglês, uma coincidência que acabou por simbolizar sua intenção de autoconhecimento. Ela também explica que seu livro contém 108 relatos, 36 sobre cada país e que este número foi proposital, pois 108 é um múltiplo de três, formado por três dígitos, cuja soma dos algarismo dá nove, que é três vezes três. Ela explica como o número 3 representa o equilíbrio supremo, a Santíssima Trindade, enfim. Além disso, 108 é o número de contas que possui um japa mala. Japa malas são cordões de contas usados para ajudar hindus e budistas a se concentrarem na meditação. Para cada repetição do mantra toca-se uma conta. Os terços seriam, na Idade Média, baseados nos japa malas.

Explicada a estrutura da história, preciso falar que a li no momento certo da minha vida. Quando o filme estava em cartaz, eu não me interessei em vê-lo, nem em ler o livro. Há talvez dois anos atrás comprei o livro num sebo, porque estava bem baratinho. Só recentemente resolvi ler. E foi ótimo por vários motivos. Eu me identifiquei com o relacionamento de Liz e David, o quanto ela foi consumida por aquilo e como foi difícil colocar um ponto final. Me identifiquei com a descrição que ela faz da depressão. Com a paixão dela pela língua italiana e o interesse gastronômico no país. Eu cheguei a estudar um ano de italiano porque tinha determinado que eu iria pra Itália e depois essa ideia adormeceu, saí do curso, encarei minha realidade financeira que não me permitia e ainda não me permite ir muito longe geograficamente. Mas sonhos não deixam de ser objetivos e ler a viagem de Liz despertou em mim esses objetivos de poucos anos atrás. Outro ponto é que eu amo viajar. E, por fim, eu estava lendo essa história bem quando eu comecei a fazer yoga e ter naquelas aulas e no resultado delas ótimas experiências. Ou seja, Comer Rezar Amar era para este momento da minha vida.

Elizabeth decide o que fazer em Roma baseada apenas na sua vontade e foi assim que ela percebeu que sua vontade não estava em ver arte, moda, cinema, visitar museus, nada disso. Ela queria comer. E eu achei esse ponto muito interessante, porque ela relaciona sua estadia na Itália com a busca pelo prazer e eu sempre vejo o quanto o prazer está associado a comida e ao sexo e o livro não escapou disso. Dá pra notar isso quando a gente pensa na gula como pecado e em como o prazer adquirido da alimentação é julgado e condenado como quase obsceno. No livro, isso fica nítido quando a autora comenta que um amigo seu, italiano, disse a ela que a palavra de Roma era sexo. E diversas vezes ela descreve como via casais se beijando e se amassando sem pudores pela cidade. Eu comentei um pouco sobre isso quando falei do filme Estômago, mas de qualquer forma torno a dizer que a comida e o sexo sempre acabam se relacionando, propositadamente ou não, e isso me chama atenção exatamente pelos tabus que ambos carregam e o quanto isso está relacionado com a culpa. Quando Elizabeth escuta em sua cabeça seu ex-marido lhe questionando se ela se divorciou e foi para Roma só por aquilo (o prazer de comprar aspargos na feira e comê-los sem se preocupar com mais nada) é como se a sua consciência estivesse apontando a culpa na simples busca do prazer, especialmente quando ela ressalta a importância que os americanos dão para o trabalho. E acho lindo quando ela concluiu que sim, foi “só” por aquilo que ela embarcou nessa viagem. A parte da Itália, a qual cabe o “Comer” do título do livro termina (spoiler?) com Liz se dizendo recuperada. E, para ela, que havia perdido muito tempo no processo do divórcio, na tomada de decisão de seguir outra vida e no relacionamento com David, a melhor forma de dizer que estava recuperada, era através de duas palavras:

“Eu engordei.”

Muito a ver comigo, muito pessoal.

____ agosto 20, 2016 ____

Cafézushi

Eu já comentei aqui no blog que não é tarefa fácil encontrar variedade de comida japonesa no Rio de Janeiro. O Cafézushi é um ótimo lugar para quem quer experimentar comida japonesa em sua diversidade e qualidade. Algumas pessoas que eu conheço, amantes dessa culinária, já tinham me indicado o restaurante. Hoje eu fui conhecer e certamente é um local ao qual eu voltaria.

Comecei experimentando gyoza (ou guioza), uma massa de farinha de trigo e água, fininha e macia, recheada com carne de porco. É um prato bastante popular no Japão, mas já ouvi dizer que é uma receita chinesa, levada para o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, quando as receitas com farinha estavam substituindo o arroz que estava em falta.

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Também experimentei os onigiris, bolinhos de arroz recheados com salmão cozido. Mas, como eu prefiro o salmão cru, também pedi algumas peças de sashimi e estavam bem saborosos, diferentes dos últimos sashimis que andei comendo por aí.

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O karê já foi parte do prato da minha irmã e aqui vale uma observação: os pratos estavam geralmente acima de 35 reais, mas a porção é bastante generosa e por isso mesmo minha irmã acabou me dando parte do prato dela.

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Pra finalizar, eu pedi um pedaço do rocambole de chocolate com brigadeiro que eu estava namorando na vitrine desde que cheguei lá. Foi uma boa forma de terminar a refeição. Como disse um amigo que foi conosco “seria bom se todo lugar servisse um pedaço de bolo desse tamanho”. Pode não parecer na foto, mas a sobremesa deles também é servida em quantidades generosas.

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O “CaféZushi: Cafeteria e Sushis” também serve, como o próprio nome sugere, cafés, além de pizzas e sanduíches. Bom atendimento, espaço simples e aconchegante.

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Cafézushi: Estrada da Uruçanga, 161 – Anil, Rio de Janeiro

____ agosto 09, 2016 ____

Jiro Dreams of Sushi

Às vezes, quando eu durmo, sonho com sushis.” A frase mostrada nos primeiros minutos, dita por Jiro Ono, explica o nome do documentário e ganha um significado muito maior quando, aos poucos, vamos sendo apresentados a toda a complexidade de preparo gastronômico e de histórias de vidas que envolvem os sushis de Jiro. A beleza das imagens que mostram a preparação da comida despertam o apetite do espectador e confirmam o fato de que comer envolve todos os nossos sentidos. Assistindo Jiro Dreams of Sushi comemos com os olhos e terminamos o documentário com fome. Uma fome de perseguir sonhos e de sermos melhores e – por que não? – uma fome de viajar e conhecer o Japão. O documentário já se tornou o meu favorito (sem medo de errar nessa tarefa difícil que é determinar preferências) e agora vivo insistindo que meus amigos vejam.

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Três coisas para saber inicialmente a respeito do restaurante de Jiro é que lá serve-se apenas um prato (sushi), o espaço possui apenas 10 lugares e a conta é cara. Localizado numa estação de metrô de Tóquio e sem banheiro, foi o primeiro restaurante do tipo a receber três estrelas do Guia Michelin. A reserva deve ser feita com meses de antecedência e a excelência é certeza do atendimento. Jiro estuda seus clientes e os atende de forma específica: se são homens ou mulheres, destros ou canhotos. O documentário se tornou meu favorito por reforçar toda a minha visão sobre alimentação: temos um restaurante pequeno que serva apenas um prato e ao mesmo tempo temos a amplitude do que ele carrega. O que parece micro, torna-se macro. A história de Jiro é também a história do Japão e temos acesso a uma cultura e uma sociedade através dos sonhos de um indivíduo. Uma visão de mundo que pode ser bastante diferente da nossa (ocidental) e ainda assim dialogar com quem somos e quem queremos ser.

O documentário, dirigido por David Gelb, nos mostra concepções interessantes, como a visão japonesa de disciplina, as conquistas que vem do trabalho duro, a hierarquia de pai pra filho (o filho mais velho que deve ser o sucessor do pai na tarefa e que carrega este destino de forma muito respeitosa) e a própria hierarquia dentro do restaurante, onde os aprendizes passam muito tempo torcendo toalhas quentes (oshibori) antes de fazerem sushis. Tudo isso está ali nos dizendo que é preciso buscar a perfeição em cada ato que envolve o preparo do alimento e que deve-se ter a noção de que a verdadeira excelência exige tempo e dedicação de anos. Jiro tinha 85 anos quando o documentário foi filmado (em 2011), nenhuma vontade de se aposentar e a certeza que mesmo sendo o melhor, ainda podia superar a si mesmo, diariamente.

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Jiro conta com uma equipe na qual confia e que executa as diferentes etapas do preparo de um sushi, chegando a dizer que, hoje, ele fica com a parte mais fácil e os créditos de um trabalho feito a muitas mãos. Antes da equipe de seu restaurante estão os fornecedores dos ingredientes – o arroz, o camarão, o polvo, o atum – cada um especialista em sua área. Ninguém alcança o sucesso sozinho e nesse processo de trabalho em equipe a base é a confiança. Eles confiam em Jiro e Jiro confia neles.

Li algumas resenhas que acabavam falando que o documentário não é sobre culinária. Eu discordo. É um documentário sobre culinária e talvez seja o melhor, porque torna evidente como a alimentação é história. Como um sushi é também a história de um homem, de uma família e de um país. Agora, quem anda sonhando com sushis sou eu.