____ julho 15, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 5: This is real life

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Voltamos à nutricionista Ana Carolina e seu blogNeste texto, ela questiona “Será que estamos mesmo preparados para enfrentar a “epidemia da obesidade” ou será que estamos contribuindo negativamente com a saúde e o bem-estar dos indivíduos com excesso de peso?” Não dá pra combater obesidade sem abordar a forma depreciativa como a pessoa vê o seu corpo, sem considerar o mito da beleza ou o impacto psicológico que o tratamento tem no indivíduo.

Como aponta a nutriocinista Paola Altheia, autora do blog “Não sou exposição“, a nossa sociedade já cultua um estilo de vida que causa doenças e não é saudável. E esse estilo de vida doentio que cultuamos não se relaciona com o empoderamento de pessoas gordas, mas sim com o descrédito das mesmas e a supervalorização de corpos magros e é essa sociedade, exatamente essa, que apresenta os tais índices alarmantes de obesidade. É esse discurso estigmatizante e preconceituoso que está contribuindo pra isso e não pessoas desenvolvendo com muita dificuldade um olhar menos depreciativo para seu próprio corpo.

Aos amigos que compartilharam ou curtiram a imagem da página “Pós-moderno” que deu início a essa sequência de posts meus, gostaria que vocês pensassem um pouco mais no quanto um conteúdo na internet pode ser prejudicial a uma pessoa que já vem enfrentando dificuldades de aceitação, além de talvez problemas na saúde decorrentes do seu peso (considerando aqui os problemas também psicológicos e emocionais).

Recomendo:

____ julho 14, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 4: Quem se beneficia com as dietas?

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Mas qual o problema das dietas? Primeiro ponto é que elas tem sido usadas no discurso contra a obesidade há muito tempo e não se vê o holofote colocado no fato de que elas não funcionam. Ainda é mais fácil culpar o indivíduo gordo pelo seu suposto fracasso ao tentar emagrecer do que culpar a dieta. Mais fácil não só pra uma sociedade que prefere não enxergar a sua gordofobia, mas pra toda uma indústria que lucra com essa cultura que supervaloriza os corpos magros, vendendo remédios, shakes, revistas de dieta, cirurgias, alimentos específicos, tratamentos estéticos. Por isso não se admite o fracasso das dietas: não há fracasso para ser admitido quando se está lucrando com isso. A nutricionista Sophie Deram reflete se não seriam as dietas uma das causadoras dos aumentos no índice de obesidade, ao arruinarem a forma como as pessoas se relacionam com a comida e causarem o chamado “efeito safona” porque não funcionam a longo prazo. E são feitas para não funcionar, é não funcionando que você vai continuar recorrendo à elas para emagrecer.

Quando se faz uma dieta se estabelece com a alimentação uma relação restritiva, de privação de determinados alimentos. A pessoa fazendo a dieta vai sentir muita vontade de comer os alimentos proibidos e quando o fizer, sentirá culpa. Essa vontade reprimida junto com a culpa, faz com que essa pessoa desenvolva compulsão pela comida. Ela come compulsivamente e sente mais culpa. É uma relação de restrição, compulsão e culpa, causadora de transtornos alimentares. Muitas vezes essa pessoa vai expurgar o que comeu, seja vomitando ou usando laxantes.

A pessoa obesa acaba não sendo tratada de forma a desenvolver uma relação permissiva com a comida, baseada no “sim” e não no “não”. Isso acontece porque se acredita numa idéia enganosa de que a obesidade já é causada por uma relação extremamente permissiva com a comida (“pra emagrecer é só fechar a boca”), quando na verdade, o que ocorre é o contrário. A relação com a comida geralmente é restritiva, envolta em culpa e sentimentos negativos e a relação com o corpo é punitiva.

____ julho 13, 2016 ____

5 dias de realidade – Dia 3: Quando as campanhas de combate à obesidade falham

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As campanhas contra obesidade não estão isentas de críticas por sua boa intenção (é como diz o ditado…). Assim como dentro do consultório médico uma pessoa obesa recebe um atendimento que a afasta justamente da área da saúde, é também nas campanhas contra a obesidade que a pessoa obesa se depara com a sua depreciação. Por exemplo, teve essa campanha publicitária francesa contra obesidade infantil que acabou por colocar a criança obesa num lugar de ridicularização. Veja aqui como pessoas obesas reagem mais favoravelmente a campanhas que se relacionam com o empoderamento do que as já incessantes campanhas que acabam mais chocando do que resolvendo o problema. Aos preocupados com a saúde, parece que o empoderamento é parte do tratamento e é bem recebido por aqueles que normalmente são colocados num lugar de incapacidade e inferioridade.

Saúde não é só saúde física. É mental também. Essa sociedade, esse atendimento médico, essas campanhas contra obesidade, essa cultura que estigmatiza corpos gordos acabam contribuindo para desencadear depressão, ansiedade, insatisfação corporal, tendências suicidas e comportamentos alimentares transtornados.

O se sentir gordo às vezes mascara outros aspectos que merecem atenção e cuidado. “Gordo” e “gorda” não são sentimentos e essa forma de se expressar esconde o estar frustrado, triste, com raiva, sentindo culpa e por aí vai. Distorce o que a pessoa sente e tudo é despejado no seu aspecto físico. Expandir a noção para além do tamanho do corpo ou do número da balança ajuda numa visão menos depreciativa de si mesmo, logo, interfere positivamente no bem estar do paciente e pode fazer com que ele se expresse melhor sobre o que sente e possa tratar disso da forma correta e não através da relação compulsiva com a comida, por exemplo.

Nos EUA, a gente tem exemplo de duas abordagens diferentes em literatura infantil. No livro “Maggie goes on a diet”, é mostrada às crianças a história de uma menina que após emagrecer consegue se tornar a estrela do time de futebol da escola, reforçando a ideia de que a pessoa precisa perder peso para fazer o que quer e ser feliz – ou a ilusão que muitas pessoas gordas sustentam de que, ao emagrecerem, tudo irá se resolver. Um outro livro, chamado “Amanda’s big dream” fala sobre uma patinadora que ouve da técnica que não pode patinar por causa de seu peso e resolve abandonar seu sonho, mas recebe apoio de seus pais e de sua médica e volta a patinar, mostrando que seu corpo não deve ser um impedimento e que o que importa não é o peso e sim um estilo de vida saudável. A autora desse livro, que é especializada em transtornos alimentares, mostra como informar ao outro sobre seu grau de obesidade não tem efeito motivador, pelo contrário, é desmotivante. Neste texto do blog “O Corpo é meu”, a nutricionista Ana Carolina fala sobre as mensagens positivas sobre saúde e felicidade que este tipo de abordagem como a do livro “Amanda’s big dream” pode passar às crianças.

Não é se sentindo mal que o obeso vai buscar mudar sua realidade. Neste outro texto, a nutricionista pergunta “Mudar para se sentir bem ou se sentir bem para mudar?” e diz que a “motivação vem do quanto o indivíduo percebe a mudança como importante para sua vida e do quanto ele se sente confiante em executá-la. Difícil imaginar que uma pessoa se sinta confiante ouvindo todos os dias a mensagem de que é inadequada”. Ela diz ainda em seu blog que “comentários negativos sobre peso vindos de uma pessoa importante e amada tendem a aumentar a ansiedade com o corpo e a comida, contribuindo para uma pior imagem corporal e autoestima, além de incentivar atitudes alimentares inadequadas.”

Busquem “campanha contra obesidade” no google e vejam como elas se utilizam da reprodução de imagens depreciativas de pessoas gordas.