____ dezembro 31, 2016 ____

Retrospectiva 2016?

Ou: anos pares e alguma coisa que pensei

 

“…Que aconteça alguma coisa bem bonita pra você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo…”
(Os sobreviventes, Caio Fernando Abreu)

 

Nunca achei que veria um motivo bom para 2014 ter acontecido na minha vida. Foi um ano horroroso e até hoje não consigo pensar em aspectos positivos. Na verdade, mal consigo pensar nele. E foi tão intensamente ruim que até minha memória desse ano é meio confusa, como dizem que acontece quando um trauma é grande demais. Por isso eu me peguei rindo sozinha quando pensei que 2016 foi um ano ruim, mas não pior que 2014. Porque foi aí que eu vi a primeira coisa razoável em 2014 ter existido: virou um parâmetro tão intenso de ano ruim, que posso olhar 2016 e pensar: olha, não foi tão ruim. Mas também vi uma diferença escancarada. Em 2014 eu saía muito, bebia, chorava, passava vergonha, dava trabalho, tomava remédio controlado e bebia mais, terminava a noite chorando sentada numa calçada suja. Tantas vezes o mal estar emocional se tornou físico: eu desmaiava, eu tinha cãibras no corpo todo, minhas mãos ficavam duras, a boca entortava. Zumbido no ouvido, vertigem. O corpo louco, a cabeça a mil. Deus que me perdoe, mas às vezes me pego pensando se realmente não endoidei em algum ponto de 2014.

 

Não posso dar o troféu de pior ano ever para 2016, quando eu tive um 2014. Bom, 2016 foi ruim. Um ruim mais duro, mais realista. Realista, talvez por eu ter encarado essa dureza estando sóbria. No lugar de sair e beber, eu deitava olhando pro teto. Não lembro de um único ombro no qual eu tenha chorado, não tomei remédio pra ansiedade e depressão. Foi arrastado e dolorido, sim. Pra mim, foi também solitário. Eu disse muitos “não”. Não fui a muitos lugares, não vi muitas pessoas, não atendi todos os telefonemas. Entendia que ali, naquela hora, o que eu podia fazer por mim era mesmo deitar um pouco. E que isso ninguém podia julgar. Se em 2014 eu posso ter dado vários espetáculos de dor pra quem quisesse ver, em 2016 eu não quis subir ao palco.

 

O estupro coletivo me deixou paralisada diante de uma tela de computador na qual eu lia a notícia. A votação do impeachment televisionada deixou alguma coisa presa na minha garganta, algum grito que nunca saiu. Quando teve o acidente com o avião da Chapecoense eu ouvi a notícia e voltei a dormir. Acordei pensando se aquilo tinha sido só um pesadelo. Não parecia real, mas era. Podia dormir e acordar um milhão de vezes, continuaria sendo real e irreversível. Restava lidar.

 

Eu estava conversando com a minha mãe. Eu lembro de um passado não muito distante onde eu ainda achava que algo extraordinário podia acontecer e tornar tudo maravilhoso de repente. Coisa de quem passou boa parte da vida encantadíssima com histórias de filmes e livros. Acreditar numa cartinha de Hogwarts, num bilhete premiado que ia mudar tudo. Um Harry Potter que vive humilhado no armário embaixo da escada e recebe uma cartinha dizendo que ele é um bruxo ou um Charlie Bucket muito pobre que ganha um dos cinco bilhetes dourados no único chocolate que podia pagar e vai conhecer a Fantástica Fábrica. Acabou sendo simbólico que 2016 levasse Alan Rickman, Gene Wilder. E agora a Carrie Fisher. O Professor Snape, o Willy Wonka, a Princesa Leia. Aos 26 anos, a minha infância era uma Terra do Nunca. 2016 foi todinho uma despedida forçada.

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