filme

____ agosto 06, 2015 ____

Bistrô Romantique

A história de Bistrô Romantique se passa em um restaurante, no Dia dos Namorados. O filme reúne histórias paralelas de diferentes tipos de casais que fizeram reserva para aquela data. Assim, há um casal cuja mulher está cansada da rotina do casamento, limitada a cuidar dos filhos e do marido, enquanto o marido tem atitudes machistas e um comportamento arrogante. Tem-se a história, em contraponto, de um casal jovem bastante animado com a comemoração, o que incomoda às mesas vizinhas. Também há uma mulher depressiva que marcou a reserva apenas para ela mesma e está ali para relembrar o dia em que foi pedida em casamento pelo ex-marido, que a trocou por sua amiga. E um rapaz tímido que combinou encontro pela internet. A história vai se desenvolvendo mostrando os conflitos dessas pessoas.

Na trama principal, temos Pascaline, que administra o restaurante, enquanto seu irmão é o chef de cozinha. Acontece que seu irmão é alcoolatra e Pascaline, irmã mais velha, segura os problemas do restaurante enquanto cuida de sua sobrinha. Nesse Dia dos Namorados, ela recebe uma visita inesperada de um amor do passado que reservou a mesa com outro nome para que ela não desconfiasse de nada. O homem faz a Pascaline uma proposta que a coloca diante da oportunidade de viver a sua história. Na dúvida entre abandonar tudo e viver seu amor ou permanecer no restaurante construído com seu irmão, Pascaline fica transtornada.

O filme tem drama e comédia e as histórias poderiam ser reais, se menos caricatas. A história de Pascaline prende a gente até o fim e o que acontece em cada mesa mostram como uma refeição tem tantos aspectos para além do que se escolhe no cardápio.

____ abril 03, 2015 ____

Bagdad Café

Bagdad Café (Out of Resenheim) é um filme alemão de 1987, dirigido por Percy Adlon. A história começa com Jasmin e seu marido na estrada, viajando pelos EUA, quando os dois tem uma briga. Jasmin (Marianne Sägebrecht) vai embora e começa a andar sozinha até chegar, muito cansada e suada, ao posto-motel Bagdad Café. A recepcionista é também a proprietária do local, Brenda (CCH Pounder). Ela acabou de discutir com o marido e expulsá-lo. Temos duas mulheres muito diferentes entre si em termos de cultura, comportamento e localidade (Jasmin é alemã), mas em semelhante situação de tristeza e falta de perspectiva para o futuro.

O marido de Brenda surge com uma cafeteira que encontrou/roubou de algum lugar,  o que a deixa irritada e faz com que ela queira se livrar do objeto, mesmo estando com a cafeteira quebrada e se irritando com os clientes que chegam pedindo café.  O artefato não tem maiores participações na história, mas reflete o jeito de Brenda lidar com o lugar do qual toma conta, rejeitando o que não é fruto de seu trabalho, sem saber aceitar ajuda.

Brenda trata Jasmin muito mal desde o início, sendo grosseira e estando a todo tempo estressada com afazeres da administração,  se vendo como alguém que precisa cuidar de tudo sozinha. Jasmin, por outro lado, parece muito estranha ao local, esperando que carreguem suas malas até o quarto. A relação das duas parece impossível, mas é disso que o filme trata: a construção de uma amizade.

Com certeza temos no centro da história duas personagens muito interessantes, o que torna o filme ótimo para assistir. Outro ponto positivo foi eu ter me identificado com Jasmin. É claro que as identificações sempre tem mais a ver com nuances do que com o esteriótipo em si. Jasmin no início do filme é vista sendo inferiozada pelo marido e mesmo depois, no Bagdad Café, ela é colocada num lugar de desvalorização. Eu observava Jasmin ao longo do filme e o desenvolvimento da personagem foi mexendo comigo.  Até pelo modo dela de modificar as coisas. Ao pegar em aspiradores e vassouras e encarar a limpeza do posto-motel, ela surpreende a todos. Além disso, estabelece relações e traz um pouco de magia, o que nunca deixa de ser uma forma romântica de transformar a realidade. Outro ponto é a relação de Jasmin com seu corpo e sua sexualidade, que vai sendo sutilmente mostrada no filme através de sua relação com Rudi Cox (Jack Palance).

O bacana é vermos uma mulher durona se permitindo ser cuidada. E outra, fragilizada, tomando as rédeas da própria vida. Bagdad Café é um filme sobre amizade e felicidade. E sobre ambas não estarem relacionadas a nada de difícil acesso ou fora de nosso universo.

____ janeiro 27, 2015 ____

Estômago

Se você é do tipo que curte filmes nacionais, ou já assistiu ou já ouviu falar. Se só ouviu falar, assista. Se você é daquelas pessoas que acha o cinema nacional ruim, assista – é uma ótima chance de repensar. Se você é como eu, adora refletir assuntos ligados à alimentação e super curte um cineminha, então assista também! Estômago é um filme muito bacana (e quando eu uso a palavra “bacana” é porque acho que uma coisa vale a pena!).

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Do que se trata? A história é de Raimundo Nonato (João Miguel), um migrante nordestino que, chegando à cidade grande sem dinheiro, para num boteco e pede umas coxinhas. Come, mas sem ter como pagar, o dono do bar o coloca para lavar os pratos e o chão da cozinha. Em troca de um abrigo no quartinho dos fundos, o rapaz começa a trabalhar (sendo explorado) no boteco, fazendo salgados e atendendo às pessoas. Com ele na cozinha, a qualidade das coxinhas vendidas sobe consideravelmente e os clientes reconhecem que “boas mãos” devem estar manipulando aquela massa. Nesse trabalho, Raimundo conhece a prostituta Íria (Fabíula Nascimento), que adora comer e com a qual se envolve.

Ao mesmo tempo em que o filme conta essa história, as cenas intercalam com o tempo presente, onde Nonato está na cadeia e não sabemos o que o fez acabar lá. O desenvolvimento de sua história na cadeia também é muito interessante, todo traçado pela sua relação com a comida.

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No que me fez pensar? Primeiro, no que eu sempre digo: a alimentação é tudo e está em tudo. Justamente por isso, pouco se dá conta do papel fundamental da mesma, não apenas na nossa saúde ou sobrevivência, mas em nossas relações sociais, o que é o caso do filme. A partir da alimentação se estabelecem relações de poder. Se o personagem principal do filme consegue, de alguma forma, se manter na cidade grande é através da comida que faz, e esse tipo de situação é absurdamente comum. As pessoas com as quais se envolve chegam à ele através da comida e toda a relação tem como enfoque a comida. Na cadeia, com a sua personalidade pouco expansiva, se Nonato se firma, ganha ou perde poder, é sempre através da refeição, do prato, do alimento e do que faz com ele.

Quando o “chefão” da cadeia vai encontrar um outro bandido considerado importante no meio deles, qual a ocasião? Um almoço. Como impressionar e deixar o cara satisfeito? Com um bom almoço. É a importância que a comida tem. Montar o almoço para impressionar basta que se utilize dos códigos e pratos utilizados pela elite, porque seria considerado o melhor? Isso funciona num meio onde aquilo não é só desconhecido como pode soar estranho? Não. É preciso dialogar com a cultura e a realidade de quem vai comer aquela refeição e, ainda assim, fazê-la tão bem e tão farta que deixe a pessoa satisfeita. Satisfeita para além da saciedade. Satisfeita, sentindo-se bem recebida, acolhida, importante. O que vem desse estado de espírito é importante para se firmar relações, acordos, amizades e por aí vai. E, se há poder naquele que oferece o banquete, também faz-se necessário pensar no poder daquele que manipula a comida.

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Para mim, a questão principal é mesmo a alimentação e o poder. Mas o filme traz o alimento de tantas formas e em tantas situações que eu não posso resumir tudo apenas à essa questão. É preciso ter o olhar sensível e absorver tudinho para se pensar a alimentação representada no filme. Cenas como a do queijo gorgonzola na prisão, do carpaccio, da descrição sensorial do vinho usando-se do termo “pêlo de cachorro molhado” e o prato com formigas, tudo isso nos traz o pensamento da cultura, do significado, do hábito, da classe social. A personagem Íria também me fez ligar muito a relação da comida com o sexo, que é bem forte, basta percebemos que termos utilizados para descrever a relação sexual também são usados na descrição de pratos, afinal, ambos tratam de sabor, cheiros, texturas, sensações. Não apenas a personagem Íria, como os presos na cadeia também fazem essa ligação da comida com o sexo. “Uma comida tão boa que você quase goza.

Por fim, porque eu não posso deixar de falar sobre isso, o filme, com tantos personagens masculinos, traz do ambiente da cozinha ao da cadeia, o machismo. E meu olhar também é sempre atento à isso e eu até pretendo escrever sobre isso melhor aqui no blog. Por enquanto, fiquem com a reflexão do machismo estabelecido em diferentes espaços – boteco, cozinha, cadeia. E, pegando o gancho do parágrafo anterior, a associação não agora do sexo, mas da mulher à comida. A mulher como um pedaço de carne.

O filme foi o grande vencedor do Festival do Rio de 2007, ganhando o prêmio do público de melhor filme, além dos prêmios de melhor diretor (Marcos Jorge) e ator. No festival de Punta del Este também levou o de melhor filme e melhor ator. Então, se você é daqueles que dá valor às premiações, assista.

Já falei aqui sobre um outro filme que também recomendo muito, O Tempero da Vida.