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____ janeiro 18, 2016 ____

Como foi a Oficina

Em outubro do ano passado eu pude participar como ministrante de uma oficina na Semana da Química do IFRJ (Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Rio de Janeiro), lugar onde eu fiz meu ensino médio e me formei técnica em alimentos. Quando eu terminei o técnico, optei por fazer o vestibular pra História e seguir com a minha vontade de ser professora. Acontece que chega um momento da faculdade onde a gente precisa estagiar em uma escola. Dentre as que eu podia escolher, optei pelo IFRJ e foi muito bom voltar lá com outro olhar. Estagiei por cerca de um ano e pude reencontrar a professora que me deu aulas de história quando eu fui aluna de lá e alguém que provavelmente mesmo sem saber me deu forças para seguir adiante com a minha ideia de cursar história. Foi ela, a professora Pâmella, a primeira pessoa que falou comigo sobre a possibilidade de eu dar uma oficina sobre História da Alimentação na Semana da Química. Mais pra frente, eu me juntaria a duas professoras, a Lourdes e a Denise, também muito interessadas em destacar esse olhar múltiplo pra alimentação. Por coincidência, a Lourdes vinha justamente lendo sobre o tema e buscando desenvolver um projeto.

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A gente começou se reunindo quase toda quinta-feira. Trocamos muitas ideias, pontos de vista e materiais (textos, livros, vídeos), o que foi muito enriquecedor pra mim. Organizamos nossa apresentação pautadas em três eixos principais: história, cultura e nutrição. Eu começava com um panorama sobre História, mostrando como a alimentação pode ser objeto de estudo da história. Por exemplo, eu falei sobre as civilizações da antiguidade que se localizavam próximas aos rios por causa de suas cheias, que deixavam o solo fértil permitindo a realização da agricultura e a criação de animais. Também comentei sobre as modificações trazidas com o imperialismo e com a chamada Segunda Revolução Industrial, como a intensificação da produção em larga escala e dessa cultura do fast. Refleti como hoje temos os movimentos que reivindicam o slow food (e o slow não está só na comida, tem muitas áreas pedindo para irmos mais devagar, como o slow fashion). Analisar esses movimento ao longo do tempo é muito interessante pra gente se localizar.

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A professora Lourdes trouxe vídeos e reflexões sobre a cultura envolvida no acarajé das baianas, no churrasco de chão gaúcho e no ofício das paneleiras de Goiabeiras, fazendo com que todos pensassem sobre suas origens e hábitos. No primeiro dia tinha uma menina gaúcha que dividiu com a gente os costumes da sua família ao consumir carne e o fato dela mesma ser vegetariana. No segundo e último dia, uma amiga que foi assistir também dividiu o hábito de sua família de João Pessoa de comer cuscuz salgado no café da manhã. Ainda teve uma discussão bem legal sobre a troca da massa do acarajé, substituindo o feijão fradinho por algum ingrediente considerado mais saudável do ponto de vista nutricional. No que isso interfere culturalmente falando?

A professora Denise fez todo mundo levantar e interagir com alguns itens comprados no mercado, montando dois modelos de café da manhã, um considerado saudável e outro com opções que, se consumidas como hábito, não são saudáveis. Assim levou todo mundo a ver que a gente sabe o que escolher pra comer, ainda que alguns produtos possam nos enganar pela embalagem ou pela publicidade. Falou sobre o Guia Alimentar e como ele é revolucionário ao não estimular o consumo de ultraprocessados, indo contra uma indústria fortíssima em nosso país, e incentivando as pessoas a fazerem suas próprias comidas e darem preferência aos alimentos naturais. O Guia não é só ótimo pra gente, mas é um destaque mundial em discussão sobre alimentação. A professora, que é nutricionista, ajudou todo mundo a entender a pirâmide alimentar e nos apresentou uma forma mais simples de aplicabilidade no dia a dia através do prato equilibrado, que é uma ilustração mais didática que a pirâmide.

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Em cada dia tivemos um grupo de cerca de 10 pessoas, entre amigos e alunos. O bate papo rolou de forma tranquila exatamente por isso, mas o assunto é rico demais pra ser discutido em grupos pequenos, dado que era uma oficina gratuita. Eu tenho refletido de verdade sobre formas de despertar o interesse das pessoas para essa discussão. Busquei isso com a oficina e sigo buscando isso com o blog. Precisamos falar sobre comida, de uma forma crítica e também prazerosa, discutindo política e trocando receitas. Tudo junto, porque no fim das contas, a comida carrega essa miscelânea de significados.

As fotos são dos grupos em atividade durante a oficina.

____ setembro 04, 2015 ____

Oficina “Em pratos limpos: uma discussão sobre História da Alimentação”

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A História está presente em nosso prato, ainda que não nos demos conta. O que escolhemos comer e os rituais que utilizamos durante a refeição nos dizem muito sobre quem somos e já fomos. O intercâmbio de sabores, a receita da avó e mesmo a refeição impessoal da comida pronta no micro-ondas, tudo isso nos dá elementos que permitem estudar a História. Mas com tantas variedades de ultraprocessados, sabemos mesmo o que comemos? Conhecer o seu alimento é conhecer sua identidade, cultura e essência.

Com um caráter interdisciplinar, a alimentação pode ser discutida sob diversos olhares: como norma e ritual, pela abordagem histórica da fome, pela História da Gastronomia, pela sua representação através de livros de culinária, pelo estudo dos restaurantes e pelas relações de poder – pra citar algumas possibilidades! Isso significa que não apenas a refeição em si, mas também cadernos de receitas, manuais de etiqueta, histórias orais e a representação dos alimentos em pinturas e livros são objetos de estudo para a História.

O lançamento do Guia Alimentar para a População Brasileira deste ano discute os ultraprocessados e para quem esses alimentos seriam convenientes. Sofrendo pressão da indústria alimentícia por estimular o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados, o Guia trouxe a reflexão da diferença entre “alimento” e “produto comestível”. Eu estive no evento de lançamento do Guia e falei sobre isso aqui.

Eis que uma engenheira química, uma nutricionista e uma historiadora que tinham em comum o IFRJ resolveram se juntar na elaboração de uma oficina pra discutir com mais pessoas (de diferentes áreas e com diferentes experiências) a alimentação.

Estamos oferecendo a oficina em duas datas: 20 e 22 de outubro, de 13-17 horas, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, localizado na Rua Senador Furtado. A oficina será realizada na sala 407.

Ementa:

  • Debate sobre a alimentação como objeto de estudo da História;
  • Quando a alimentação é mais do que a ingestão de nutrientes;
  • Papéis de gênero na cozinha: as donas de casa e os chefs;
  • Intercâmbios alimentares e a comida brasileira;
  • Alimentação e Religião
  • Relações de poder e manuais de etiqueta
  • Produção em larga escala vs fome;
  • O Guia Alimentar para a população brasileira: Alimento vs. Produto Comestível.

Quem somos?

Eu me formei Técnica em Alimentos no IFRJ e voltei lá ano passado como estagiária em História pela UFRJ. Foi através da conversa com uma aluna do curso que reencontrei a professora Lourdes, minha professora (e também quem me dava carona pra casa quando as aulas acabavam 22:30h!). Ela estava interessada e envolvida com o projeto de unir história com a área de alimentos e trazer os alunos pra mais pertinho do curso, ampliando a sua visão sobre o tema. A Lourdes é doutora em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos (UFRJ), atuando na área de tecnologia, biotecnologia e inovação da cadeia produtiva de alimentos. Foi através dela que eu conheci a Denise, nutricionista com doutorado em Ciências (UFRJ).